INÚTIL? O Cunha mesmo sendo carta fora do baralho pode contribuir com os planos de Temer; CONFIRA!

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Não precisamos nos enganar. Em julho de 2016, a renúncia do suíço Eduardo Cunha é um gesto que atende à necessidade urgente de Michel Temer de elevar o grau de legitimidade de um governo nascido de um impeachment sem prova de crime de responsabilidade. Cunha já cumpriu o papel que podia desempenhar, articulando o afastamento de Dilma, e agora pode ser dispensado como o bagaço de uma laranja. Renunciou à presidência da Câmara. Não tem a menor garantia de que poderá conservar o mandato.

Provavelmente o mais odiado político brasileiro em atividade, o acúmulo de denúncias comprovadas contra Cunha tornou-se uma forma de humilhar o cidadão comum.

Sua arrogância funcionava como um fator de desgaste óbvio para Temer – que lhe deve o impagável domingo de circo em que a abertura do impeachment foi autorizada — e motivo de denúncia e mobilização dos aliados de Dilma Rousseff. O governo Temer não se torna mais aceitável depois que o suíço renunciou à presidência da Câmara.

O afastamento de Dilma segue um processo espúrio e o fato de seu maior responsável ter renunciado ao cargo, dois meses depois de a presidente ser enviada ao cadafalso, numa jornada em que assumiu o papel de carrasco, só vem agravar as denúncias existentes contra ele.

De qualquer forma, os aliados de Temer tentarão usar o episódio para tentar construir um novo ambiente para as próximas semanas, quando o Senado dará a palavra final sobre o impeachment de Dilma. Num momento de acalorado debate, numa disputa decisiva para a democracia brasileira, o declínio de Cunha irá servir de argumento para sustentar uma tese conveniente, do ponto de vista político, mas falsa, do ponto de vista dos fatos e provas – que a punição contra a corrupção é um processo isento, com base legal, sem preferências de natureza política. A primeira denúncia do Procurador Geral da República contra Cunha ficou meses parada no Supremo. Só foi acionada depois que ele já havia feito o servico contra a presidente.

O caso Cunha guarda uma semelhança curiosa com a queda de Adhemar de Barros, que ocorreu em junho de 1966, há exatamente 50 anos e um mês, quando teve o mandato cassado pelo regime militar. Governador de São Paulo pela segunda vez, terceiro colocado na eleição presidencial de 1960, Adhemar foi um personagem essencial no golpe de abril de 1964, que interrompeu o mandato constitucional de João Goulart e deu posse a uma ditadura que governo o país por 21 anos. No despacho em que anunciou a cassação, ocorrida que o governo militar enfrentara duas derrotas importantes, nas eleições estaduais no Rio de Janeiro e Minas Gerais, vencidas pela oposição, Castello Branco deu justificativas de caráter moral para a decisão. Disse que “ponderáveis correntes de opinião consideravam incompatíveis os objetivos do movimento regenerador de março de 1964 com a presença da vida pública do ex-governador de São Paulo”.

No mesmo documento, Castello Branco foi além e escreveu em tom solene que a cassação de Adhemar era necessária para que o país pudesse realizar “eleições livres e limpas”. Pura conversa mole. Os brasileiros só voltariam às urnas para escolher o presidente da República mais de vinte anos depois, em 1989, quando o governo dos generais já havia sido mandado para casa.

Em 1964, o papel de Adhemar na queda de Jango chegou a dar a impressão de que ele poderia ser acolhido pelos senhores da nova ordem. Depois de ter sido marginalizado durante duas décadas pela sua origem getulista, um fator bem mais relevante do que permanentes denúncias de corrupção lançadas contra ele, nos primeiros dias do golpe Adhemar chegou a apresentar-se como opção civil para uma ditadura que tomou posse com o compromisso de respeitar o calendário eleitoral e realizar eleições presidenciais em outubro do ano seguinte.

Enquanto o suíço Cunha aceitou a denúncia de um impeachment contra Dilma naquelas condições que todos conhecem, e garantiu uma votação em clima de circo no domingo à tarde, domingo, o papel de Adhemar na queda de Goulart, costuma ser minimizado pelos demais líderes do golpe de 1964, no clássico esforço de reescrever o passado de modo a não envergonhar filhos nem netos. Ele ingressou nos preparativos do golpe contra Goulart logo no início. Muitas vezes evitava comparecer pessoalmente a reuniões conspiratórias para evitar suspeitas – mas contava com cúmplices que lhe entregavam fitas gravadas com as conversas travadas entre militares e civis, conta Amilton Lovato, autor da biografia “Adhemar – fé em Deus e Pé na Tábua” (2014, Geração Editorial).

Governador do Estado mais rico do país, Adhemar era um aliado indispensável ao golpe, que dificilmente poderia ser vitorioso sem sua adesão e com certeza estaria condenado ao fracasso se lhe fizesse oposição. O importante é que tinha capacidade de mobilização popular, construída pela proximidade com Getúlio Vargas, que o fez interventor durante o Estado e a quem se aliou em 1950, recebendo vaga de vice para seu protegido Café Filho. Também mantinha relações ambíguas no movimento sindical e com o próprio Partido Comunista, numeroso, influente — e ilegal. Adhemar foi o governador de Estado que organizou o único protesto de massa contra Jango antes que os tanques do general Mourão descessem de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade reuniu 500 000 pessoas no centro de São Paulo, mostrando que a ideia de derrubar Jango teria apoio de uma parcela importante da população, em particular da classe média. “A marcha ajudou quem estava em cima do muro”, escreve Amilton Lovato. Ele sustenta que a Marcha assegurou o apoio dos principais governos estaduais ao golpe. Realizada logo depois do Comício da Central, visto com uma respeitável demonstração de apoio às Reformas de Base de Goulart, a marcha consolidou a aliança de conspiradores como Magalhães Pinto, o governador de Minas Gerais, que mas tinha um comportamento que o próprio Adhemar definia como “ enguia ensaboada”. A manifestação ainda trouxe Nei Braga, do Paraná e Ildo Meneghetti, do Rio Grande do Sul. Apontado como principal liderança civil do golpe de 64, Carlos Lacerda assistiu pessoalmente a Marcha em São Paulo, evitando ser reconhecido, mas nunca se atreveu a convocar um movimento semelhante no Rio de Janeiro. Documentos do governo norte-americano mostram que o evento foi acompanhado minuciosamente por Washington, que ali enxergou uma boa razão para confirmar seu engajamento no golpe, que já apoiava disponíveis desde 1962.

Pelos serviços prestados a velhos inimigos, a quem se aliou num momento historicamente decisivo, Adhemar julgasse merecer um tratamento preferencial. Não teve direito sequer a um gesto de boas maneiras. Os mesmos jornais que haviam silenciado sobre as denúncias de corrupção quando ele cumpria um papel necessário para derrotar o inimigo principal Goulart, aos poucos voltaram a carga. Após a cassação, um grupo de jornalistas que cobria o palácio de governo tentou abrir a bagagem de Adhemar, levando um assessor a reagir com indignação: “Você quer saber o que há aqui? Pois eu lhe mostro. É a cueca do governador. Quer ver?”

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