Dilma: ‘chorei no dia da prisão de Lula’; CONFIRA!

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Por Bia Willcox – Dilma Rousseff passou nas últimas semanas por grandes universidades para denunciar o golpe. No dia 17 de abril de 2018, ela esteve na universidade de Stanford, na Califórnia, onde eu também estava. Tive a oportunidade e a honra de entrevistá-la no dia em que seu impeachment completou 2 anos, dia simbólico de início do golpe.




Sentamos no lobby do hotel antes de sua palestra e batemos um papo que deveria ter sido mais rápido do que foi. De lá partimos para o auditório em Stanford, onde foi recebida pela professora e ativista dos Direitos Civis Angela Davis e falou a uma platéia de professores, brasileiros que moram na Califórnia e muitos estudantes.




Alguns trechos da entrevista foram publicados com exclusividade pelo Jornal do Brasil nesta sexta-feira 20, onde também pode ser ouvido o áudio, mas a íntegra da conversa segue abaixo:
Presidenta, qual o papel das suas viagens nesse tempo de crise política no Brasil?

Eu vou te dizer qual é: no Brasil nós estamos em uma situação, eu acho, bastante radicalizada. Do golpe que dois anos atrás teve início naquela sessão que eu acredito que estarreceu o Brasil – e se alguém de outros países assistiu também está em juntar na sua agenda da mãe da gente vende caro constantemente também se estarreceu. Votaram a favor da mãe, da filha, a favor do agente de seguro… O deputado federal Bolsonaro votou a favor da ditadura militar, da tortura e do torturador que segundo ele “me aterrorizou”.

Bem, esse processo é um processo sobre o qual há um nível ainda mais alto de consciência hoje no Brasil e também em muitos países. Notadamente os países europeus onde houve uma grande percepção de que tenha sido um golpe. Aqui também nos Estados Unidos, nas áreas jornalística e acadêmica, há essa percepção. O julgamento do impeachment há dois anos é o inicio de um processo e não um ato inaugural. A partir do impeachment, várias atrocidades legais começam a ser cometidas com repercussão na vida das pessoas. Se adota uma agenda econômica e política que ninguém aprovou, ferindo profundamente o Estado Democrático de Direito.

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O que ocorre numa eleição? Você não vota pelos belos olhos de ninguém, e sim porque você concorda com aquele programa. A segunda etapa do golpe é aplicar uma agenda sem a menor legitimidade, que é algo grave! Utilizam o que estava em curso como uma operação anticorrupção que era dirigida a nós, somente a nós (do PT) e não pode ser assim na democracia (ou quando existe formalmente um Estado de Direito), até que as investigações chegaram neles, e não a nós. O Temer, o Aécio é gravado. Provas cabais! Você não pode discutir com um vídeo ou com a imagem daquele apartamento com 51 milhões de reais de um ministro do Temer. Não se pode discutir com conta na Suíça do sr. Serra. Você não pode discutir com tudo o que está aparecendo.

Nós deveríamos estar destruídos, pois um dos objetivos do golpe, além de colocar essa agenda que não tinha sido aprovada, era destruir o PT, o presidente Lula e a mim. Com a aplicação dessa agenda e com a quantidade de evidências que mostram quem são essas pessoas, começa a haver um desgaste dos que sustentaram o golpe. Quem são eles? O PMDB, o PSDB e até mesmo o PFL. Eles não têm candidatos. O centro golpista não tem candidatos.

O Brasil sempre teve um centro democrático. O Brasil sempre precisou desse centro democrático para governabilidade e teve grandes nomes: Mário Covas, senhor democracia Ulysses Guimarães. Tivemos grandes nomes no centro progressista democrático. Mas esse centro se desloca hoje para a direita e vemos isso quando, no PMDB, o Eduardo Cunha passa a controlar o partido. O centro passa a ser dominado pela direita, que é o sr. Eduardo Cunha. Eles instilam o ódio, criam movimentos como o MBL e o Vem Pra Rua, que tem características cada vez mais explicitamente fascistas. E aí surge algo que eles não contavam: a extrema direita ocupando o espaço que era deles.

E aí estamos nós aqui, que deveríamos estar destruídos depois de momentos difíceis. No início de 2017, a população começa a perceber progressivamente o que está havendo e aumenta a popularidade do Lula, melhora a avaliação do PT. Elas se dão conta do que está em curso. E cai a rejeição do Lula. Por que cai a rejeição por ele? Porque nós vinhamos sendo julgados numa instância que eles criaram e não é uma instância do judiciário, e sim a relação que existe entre o Poder Judiciário brasileiro e a mídia. Segmentos do MP, Polícia Federal e Justiça em geral vazavam informações para a imprensa. A imprensa expunha na TV, jornais e revistas. Você não tem nessa instância o direito de defesa. Você não tem o contraditório. Você não tem nada, é condenado liminarmente e ponto. Primeiro se joga a condenação e depois se pergunta: “mas como foi mesmo?”.

Vou lhe dar um exemplo: em certa altura, um delator chamado Otávio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez, declarou que minha campanha tinha recebido um milhão de reais e que duas pessoas, meu chefe de gabinete e o tesoureiro da minha campanha, tinham ido atrás dele e dito que se ele não desse um milhão de reais, perderia contratos. Nós levamos essa pecha enquanto o processo esteve só sendo difundido pela imprensa. Na hora do juiz, a minha defesa perguntou “como foi isso? Onde está o pagamento?”. Ele deu dia e hora do pagamento. Quando fomos checar, ele tinha pago ao PMDB e ao Temer.

O juiz ficou perplexo, pois recebeu o cheque, que deveria estar na Justiça Eleitoral. Pedimos então que anulassem a delação mentirosa. Ele simplesmente pediu desculpas, disse que se enganou, e o juiz simplesmente desculpou. Esse exemplo que eu estou te dando é para mostrar como o julgamento da imprensa foi chave para construírem a culpabilidade do Lula.

Uma coisa que me chama muita atenção é o seu caráter. Um sentido de lealdade e solidariedade ao Lula. Me fale disso

Eu tenho uma relação com o Lula que foi construída ao longo dos anos que comecei a trabalhar com ele. Em 2003, virei ministra de Minas e Energia, mas não convivia muito com ele. Em 2005, eu virei chefe da Casa Civil, que é como se fosse um coordenador do governo. O meu gabinete ficava em cima do gabinete do Lula. Passávamos o dia descendo e subindo. Eu fiquei nesse cargo participando de todas as ações, convivendo com ele uma média de 12 horas por dia.

Estou sentindo muito a prisão do Lula. Eu conheço a personalidade do Lula, ele é uma pessoa extremamente generosa. Ele foi muito amado pela mãe. Mãe é uma figura fundamental, sabia? A mãe dele era paupérrima, tinha somente uma lata de leite, era uma mulher analfabeta, mas um dia disse à professora do Lula, que queria ficar com ele porque era um aluno muito inteligente: “Não, ele tem mãe, obrigada.” Esse amor irrestrito dela por ele transformou ele numa pessoa muito boa.

Eu sei o que ele representa, sei da capacidade dele. Como qualquer ser humano, Lula também tem defeitos, mas as qualidades do Lula são infinitamente superiores. Olha, eu não chorei na minha prisão. Eu fiquei três anos na cadeia. Não chorei no meu processo de impeachment. O dia que eu soube que ele ia ser preso, eu chorei. Sabe por quê? Comove muito uma situação de absoluta injustiça. Engraçado que no dia do meu impeachment, atrás de uma pilastra no Palácio da Alvorada, quando eu desci a rampa, ele me abraçou chorando, soluçava. Eu disse para ele: ‘acalme-se’. Agora, na sua prisão, ele quem me acalmou.

Como é sua relação com ele?

É de irmandade. Eu entendo. Cada um de nós é de um jeito. Eu convivi muito com ele e sei quando ele está falando o que está sentido e falando o que vai realmente fazer.

Sobre a sua candidatura ao Senado, o que a motivou a se candidatar?

Eu fui muito estimulada pelo Lula a me candidatar em Minas Gerais. Só saberemos da candidatura em agosto. O que houve agora é que eu levei meu título de eleitor para lá. Por que Minas Gerais? É minha terra Natal e minha mãe está com 94 anos e doente. Preciso estar mais perto dela. A candidatura sendo em Minas eu junto as duas coisas.

Quanto tempo pode durar isso tudo que estamos vivendo? Consegue prever?

Posso te falar uma coisa? São momentos decisivos, as eleições serão importantes. Muitas pessoas falam “ah, mas o Lula está preso e vocês têm que buscar um plano B”. Que estranho… por que nós? Sabemos que o Lula é inocente, sabemos que ele sofre perseguição politica. Vamos deixar de considerá-lo candidato por que eles resolveram prendê-lo? É uma forma de facilitar a vida deles.

Não sei se você se lembra, nas vésperas do impeachment, lá para junho, começou uma história de que eu deveria renunciar. “Ela não vai renunciar porque é autista, não consegue perceber a situação. E aí vem as questões que eles sempre usaram contra mim: mulher é dura e homem é firme, mulher é frágil, homem é sensível, mulher é obsessiva-compulsiva com seu trabalho, homem é um trabalhador criativo. Essa tipologia toda que fazem conosco além dos preconceitos que destilam nos comentários sexuais, ajudam a criar esse clima.

Eu acredito que esse processo tem seu momento decisivo e um deles será essa eleição. Por quê? Porque não há como nós sairmos dessa situação de crise da democracia no Brasil, de golpe parlamentar, judiciário e midiático, sem que nós tenhamos um reencontro com a democracia. Achar que dá para fazer uma transição por baixo, um acordão por baixo, sem ter a legitimidade de um processo eleitoral que institua as condições para o pacto democrático, será flertar novamente com um fechamento ou com uma erosão da democracia.

Vai ter eleição?

Olha, eu acho muito difícil não ter. Mas não sei em que condições, porque há eleições e eleições. Espero muito que sim.

Como se tira o Lula do confinamento?

Olha, eu vou lutar e resistir. Eu acredito que não existe um processo fácil. Existe a certeza histórica de que todos os processos podem ser revertidos, todos os processos podem ser derrotados. Eu acho que temos de entender por que é um golpe e que é um golpe contra a democracia. Temos que expandir os limites da democracia, já que a questão é de ameaça democrática.

Muitos me perguntaram: “Por que você vai ao Senado se você sabe que há uma altíssima probabilidade de eles aprovarem o impeachment?”. Eu vou para o Senado não por eles, mas porque é uma instituição do meu país e lá eu vou confrontar do único jeito que se pode confrontar numa democracia: uma discussão aberta, expondo as contradições deles e fazendo a denúncia. Se nós, digo ‘nós’ porque tive advogados, companheiros que me ajudaram, não tivéssemos feito isso, não teríamos conquistado uma narrativa que ninguém tira de nós. Construímos a narrativa e ninguém tira o que construímos com nossa luta e nossa tristeza, com as nossas dores. Esse processo tem uma força de verdade, todos nós nos motivamos quando vemos que uma narrativa é verdadeira.

Uma pessoa me disse algo muito importante aqui nos EUA: “você percebe que a verdade é extremamente carismática?”. Foi o professor Harley Shaiken, da Universidade de Berkeley. Ou seja, a verdade tem uma capacidade enorme de convencer, porque ela dá conta da realidade que compartilhamos.

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