Medo de regulação da mídia faz Jornal Nacional atuar como partido

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Por Eduardo Maretti, da RBA – Levantamento do Manchetômetro sobre a participação dos candidatos à presidência da República no Jornal Nacional mostra que a atuação da bancada formada por William Bonner e Renata Vasconcellos está longe de ser imparcial. Segundo o site de análise de comunicação, vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), o candidato do PT, Fernando Haddad – cuja entrevista, na sexta-feira (14), encerrou a série – foi o mais interrompido pelos entrevistadores: foram 66 vezes.

Geraldo Alckmin (PSDB) teve o raciocínio “cortado” em 51 oportunidades, seguido por Marina Silva (Rede), 43, e Ciro Gomes (PDT), 36. O candidato que teve mais “sorte” no JN foi o líder nas pesquisas, Jair Bolsonaro (PSL), com 34 interrupções, quase a metade do número registrado no caso de Haddad.

Segundo a análise, o petista (52%) e Ciro Gomes (51%) foram os que tiveram menos tempo para falar, do total de meia hora de entrevista, na comparação com o tempo ocupado pelos próprios entrevistadores. Marina foi a candidata que por mais tempo falou. Ela dispôs de 65% do tempo, enquanto Bonner e Renata falaram por apenas 35%. Alckmin (54%) e Bolsonaro (55%) foram os que tiveram o tempo mais equilibrado na comparação com os âncoras do telejornal global, de acordo com o estudo.

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Além desses dados, Haddad foi o mais fustigado com o tema corrupção. No caso do petista, 63% da entrevista girou sobre essa pauta. No programa com Alckmin, o tempo dedicado a corrupção foi de 58%, seguindo-se Ciro Gomes (43%), Bolsonaro (16%) e Marina (14%).

“Com candidatos que não se alinham aos interesses da Globo, as entrevistas servem mais para dar publicidade a esses interesses do que para ouvir o entrevistado. Isso não é de hoje”, diz o professor Laurindo Lalo Leal Filho.

“Nas eleições de 2014, no mesmo Jornal Nacional, o publicitário que faz as vezes de apresentador e editor-chefe repetia seguidamente a palavra ‘corrupção’ ao entrevistar a presidenta Dilma Rousseff. Em quase todas as perguntas aparecia essa palavra. Não havia interesse em saber o que a presidenta dizia, mas em pregar a pecha de corrupta, uma ideia facilmente assimilada pelo telespectador.”

Para Lalo, na eleição de 2018 esta situação agravou-se, provavelmente pelo fato de o programa de governo do PT prever claramente a regulação da mídia, que será enviada ao Congresso Nacional. “Isso assusta a Globo e faz dos seus funcionários porta-vozes de uma campanha contrária, atuando como se fossem integrantes de um partido político.”

Em sua opinião, a diferença desta para outras eleições é que em 2018 os candidatos de oposição aos interesses da Globo “estão reagindo ao assédio dos apresentadores, o que os torna ainda mais agressivos”.

Porém, as interrupções sofridas por Fernando Haddad no Jornal Nacional “foram um tiro no pé” para a emissora, segundo interpreta Lalo Leal. “Demonstraram uma arrogância e uma grosseria incompatíveis com o senso de civilidade e de educação de grande parte da sociedade brasileira.”

Mais do que isso, essa interferência indevida dos âncoras mostrou incompetência e dificuldade de articularem as perguntas. “Isso demonstrou desconhecimento dos assuntos discutidos, provando claramente que eles apenas liam aquilo que os seus superiores, a mando dos patrões, escreveram”.

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