DIRCEU: “Não acredito em voto útil para o Ciro, mas vai funcionar para o Haddad”

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(…) Valor: O senhor tem receio do voto útil em Ciro Gomes, porque Haddad é o único que não vence Bolsonaro no segundo turno?

Dirceu: Não acredito em voto útil para o Ciro, mas vai funcionar para o Haddad que está na frente.

Valor: Bolsonaro cresce mais, depois que deixar o hospital?

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Dirceu: No Brasil, 45% dos votos são nossos, e 45% dos conservadores. Se o Alckmin não consegue empolgar esse eleitorado, esses eleitores correm para o Bolsonaro, nem tapam o nariz. Se votaram no [Fernando] Collor e em Jânio [Quadros] por que não votariam no Bolsonaro?

Valor: Então pela história, Bolsonaro está quase eleito?

Dirceu: Não é assim, naquela época [de Jânio] não tinha o PT e não tinha Lula. E quando elegeram Collor, o PT não tinha o eleitorado consolidado que tem hoje.

Valor: O senhor foi um dos articuladores do apoio do PSDB a Lula em 1989. Os tucanos apoiariam Haddad contra Bolsonaro?

Dirceu: O PSDB não comanda o eleitorado dele. Primeiro vamos ver quantos por cento do eleitorado vai votar no Alckmin. Os movimentos de alianças para o segundo turno vão começar a acontecer nesta semana, quando as forças políticas começarem a se posicionar.

Valor: Quais forças políticas?

Dirceu: A eleição não é só o candidato, é a base que ele conquistou. Entra em campo uma máquina no segundo turno de prefeitos e governadores, nós vamos eleger quase todos os governadores pró-Lula do Nordeste, isso é uma força muito grande.

Valor: Se Haddad for para o segundo turno, Ciro Gomes estará com ele?

Dirceu: O Ciro já está conosco, ele já declarou que vota contra o Bolsonaro, até o Fernando Henrique [Cardoso] falou isso.

Valor: Vocês estão preocupados em neutralizar o antipetismo para vencer Bolsonaro?

Dirceu: Não existe antipetismo, o que tem é o eleitor que não é petista, é natural que o eleitor conservador não vote no PT. Como falar de antipetismo se Lula tem 45% de intenções de voto? O PT tem 22% de rejeição, a mais baixa da série histórica, tem 29% da preferência dos brasileiros, será o partido mais votado para a Câmara dos Deputados.

Valor: Haddad não era o preferido do PT para o lugar de Lula…

Dirceu: Era sim, o PT tinha dois nomes desde o começo: Jaques Wagner e Haddad.

Valor: A maioria preferia Wagner, não foi uma espécie de traição ele dizer não ao Lula?

Dirceu: Não faço nenhuma crítica ao Wagner, é um direito que ele tem. Ele foi franco e sincero desde o começo, quando disse que não queria, nós é que ficamos insistindo. Ele já deu provas mais do que suficientes de que é leal ao Lula e ao PT.

Valor: E o que o senhor acha de Haddad no lugar de Lula?

Dirceu: A maior vantagem do Haddad é que ele quer ser candidato, lutou pra ser e vai ser presidente.

Valor: Uma ala do PT reclama do estilo dele como prefeito de São Paulo, reservado e avesso a agendas com o povo.

Dirceu: Veja, 40% do PT sempre votou contra mim [para os cargos de direção do partido]. Isso faz parte do partido. Ele foi prefeito de São Paulo, fez um bom governo. Perdeu a eleição em 2016, e daí? O Fernando Henrique também perdeu a eleição pra prefeito de São Paulo [para Jânio em 1985].

Valor: Há no PT quem receie que ele repita Dilma Rousseff no estilo de governar, quanto à falta de acesso e de diálogo.

Dirceu: Dilma é Dilma, Haddad é Haddad. Todo mundo no PT conhece o Haddad da prefeitura, sabe defeitos e as qualidades dele. Como eu, as pessoas aprendem. Quem não aprende não vai a lugar nenhum. O Haddad, como qualquer ser humano, aprende.

Valor: Se Haddad se eleger, há quem diga que não conseguirá governar…

Dirceu: Isso aí falavam do Lula [em 2002], mas ele foi eleito e nós demos um banho de governo. Haddad vai assumir, se for eleito, e vai melhorar o ambiente político e a economia, vamos fazer a reforma tributária e do sistema bancário e financeiro.

Valor: Mas dizem que Haddad não controla o PT, quem vai governar?

Dirceu: Do PT nós damos conta.

Valor: Vocês esperavam que Lula, mesmo preso, transferisse votos?

Dirceu: Quando ele fez as caravanas pelo Nordeste [no começo do ano] isso estava claro. Dois terços do eleitorado é Lula.

Valor: No livro, o senhor diz que foi “abandonado à própria sorte” no mensalão. Tem mágoa de Lula?

Dirceu: Não tenho mágoa nem ressentimento, se tivesse estava morto há muito tempo.

Valor: Foi um erro Lula não se candidatar em 2014?

Dirceu: Claro que foi, mas ele tem as razões dele, um dia ele vai falar.

Valor: Quando se falaram pela última vez?

Dirceu: Depois de 2013, eu nunca mais conversei com o Lula.

Valor: Nem por carta?

Dirceu: Lula não gosta de carta. Pelo menos não gostava. Na transição de governo [em 2002] eu mandei uma carta pra ele, e ele falou: não faça mais isso. Mas fiz cartas pessoais pra ele quando estava preso.

Valor: O PT errou na indicação dos ministros do Supremo?

Dirceu: O PT indicou todos que tinham antecedentes que justificam a indicação. Se o [Edson] Fachin mudou, se o [Luís Roberto] Barroso mudou, se a Cármen Lúcia mudou, é problema deles. Cada um vai ter que explicar um dia por que toda a história anterior que eles tinham mudou.

Valor: Lula merece ser indultado se o Haddad ganhar a eleição?

Dirceu: Lula não aceita perdão nem prisão domiciliar e nem tornozeleira eletrônica. Mas esse é um poder discricionário do presidente. O [ministro] Barroso deu uma liminar assumindo o poder de presidente da República [ao mudar decreto de Michel Temer], é o Barroso quem deveria sofrer impeachment.

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