Reinaldo Azevedo fala em decepção com Toffoli, “extrema-direita deve estar feliz com ele”

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Blog do Reinaldo Azevedo

Se a extrema-direita soubesse de antemão que o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo, prefere chamar o golpe de 1964 de “movimento militar”, certamente não o teria malhado tanto — e talvez a minha defesa tivesse sido até desnecessária. Não que ele me deva alguma coisa, claro! Mas eu desconhecia esse seu lado revisionista. Alegou, não sei a circunstância, que aprendeu tal lição com Torquato Jardim, ministro da Justiça. Também evocou o historiador e ex-militante Daniel Aarão Reis, que, a exemplo deste escriba — e desde sempre — aponta que não havia movimentos organizados em defesa da democracia em 1964, à esquerda ou à direita. Mas negar o golpe? Aí não dá! Mais: é preciso reconhecer que houve um golpe seguido de uma ditadura, como costuma acontecer.

Toffoli já teve um colega de tribunal que foi torturado na vigência do que ele agora chama de “movimento”: refiro-me ao ex-ministro Eros Grau. O “movimento” matou Vladimir Herzog, deu sumiço no deputado Rubens Paiva, assassinou Manuel Fiel Filho. E outras 400 e tantas pessoas — os números variam. Foi na vigência do “movimento” que o presidente Ernesto Geisel, sabedor da existência de uma lista de pessoas a serem eliminadas, em vez de mandar prender os convivas, preferiu centralizar a operação na mão do então chefe do SNI. Perto dos mais de 30 mil mortos da Argentina e dos mas de 3 mil do Chle, a nossa “dita” até que foi branda? Sim, mas, em si, a dita foi dura.

O “movimento” decretou o AI-5 em 13 de dezembro de 1968, outorgou a Constituição de 1969 e fechou o Congresso em 1977 no tal Pacote de Abril, instituindo os senadores biônicos. Sabem como é esse negócio de movimento militar…

O fato de a ditadura brasileira ter sido menos violenta do que suas congêneres latino-americanas, matando proporcionalmente muito menos, não muda o caráter do regime nem a sua essência golpista, ainda que a turma “do lado de lá” não tivesse compromisso com a democracia. Sim, terroristas de esquerda também mataram pessoas. Eu mesmo já publiquei seus nomes, e a Comissão da Verdade não quis saber desses fatos. É claro que reconheço a diferença, para o andamento da história, embora seja irrelevante para as vítimas e seus familiares, entre crimes cometidos pelo Estado e crimes cometidos por indivíduos ou organizações. Mas isso não muda o caráter seletivo daquele outro revisionismo, característico de uma certa arrogância que têm as esquerdas, que anseiam contar a história segundo o que entendem ser o seu motor. A reação está aí.

Escrevo agora o que sempre escrevi. Militares, esquerda e direita… Ninguém queria democracia em 1964. Mas aquilo que aconteceu foi golpe. Depois houve autogolpes no golpe. E o período é conhecido como “ditadura”. Sim, foi menos violenta do que a do Estado Novo, liderada por Getúlio Vargas, tido como herói por parte das esquerdas…

Eu não preciso ser seletivo nem preciso caçar “likes” em memórias turvas. O “movimento militar” matou. As esquerdas mataram. Todos repudiavam a democracia. E aquilo que aconteceu em 1964 foi um… golpe! Que tentou se passar por “movimento”.

Se Toffoli tiver alguma dúvida, pode telefonar para Eros Grau que este explica a diferença entre uma coisa e outra. E olhem que Grau, como este escriba, foi contra a tese da revisão da Lei da Anistia. Não é preciso defender a revanche para se alinhar com os fatos. Não sei o que Jardim andou dizendo a Toffoli. Mas sei o que pensa Aarão Reis.

Foi golpe, ministro!

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