Aloysio critica ala do PSDB que abandona Alckmin e se diz espantado

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Único sobrevivente do PSDB no governo, o chanceler Aloysio Nunes Ferreira passou um “pito” nos colegas de partido que começaram a abandonar o candidato tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, e disse ficar “espantado” com o tom das cobranças de correligionários.

“Não é hora de fazer autocrítica nem de discutir rumos da campanha e do PSDB, muito menos em público”, afirmou o ministro das Relações Exteriores à reportagem. “Será que não estão vendo que uma coisa dessas joga água no moinho do PT? O que me espanta é que ninguém cobra que o Haddad faça autocrítica de nada”, emendou ele, em uma referência ao candidato do PT, Fernando Haddad.

O “fogo amigo” tomou conta do PSDB, nos últimos dias, e vários tucanos desfiaram um rosário de críticas à atuação de Alckmin – estagnado nas pesquisas de intenção de voto. Nessa toada, houve até quem se aproximasse do deputado Jair Bolsonaro (PSL), que lidera a corrida ao Palácio do Planalto, estimulando traições nas fileiras de outros partidos aliados.

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Nesta quarta, o engenheiro agrônomo Xico Graziano decidiu deixar o partido e apoiar o candidato do PSL. Graziano é um dos mais próximos amigos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e foi chefe de gabinete do tucano na Presidência da República. “Venho tendo divergências com o PSDB desde o fim da eleição de 2014. Fui virando um patinho feio no partido. Achei um erro questionar a eleição daquele ano e depois tirar a Dilma (Rousseff) sem tirar o Temer. Meu voto agora será anti-PT”, disse Graziano.

Ex-deputado federal pelo PSDB, Graziano também foi secretário de Meio Ambiente de José Serra no governo paulista. Em 2014, foi um dos coordenadores da área digital da campanha de Aécio Neves. Ele foi também um dos principais diretores do Instituto Fernando Henrique. “Mantenho a admiração e a amizade com o ex-presidente. Tenho relações pessoais com ele até hoje. Nos vemos toda semana”, disse o agora ex-tucano.

Ex-presidente do PSDB, o senador Tasso Jereissati (CE) chegou a dizer ao jornal O Estado de S. Paulo, no mês passado, que o partido cometeu “erros memoráveis”. O principal deles, na avaliação de Tasso, foi a entrada no governo de Michel Temer, com a ocupação de quatro ministérios. “Foi a gota d’água, junto com os problemas do Aécio (Neves). Fomos engolidos pela tentação do poder”, afirmou o senador, que em 2017 substituiu Aécio por alguns meses, no comando do PSDB, após o colega virar alvo da Lava Jato.

Aloysio voltou a defender a sustentação do PSDB à gestão Temer, na esteira do impeachment de Dilma Rousseff (PT), e disse que o clima eleitoral – marcado por “tensão, injúrias e propostas sumárias” – não se presta a análises serenas. “Depois da eleição, quando baixar a poeira, o PSDB poderá fazer um balanço desapaixonado”, argumentou o chanceler. “Agora, temos de lutar até o último minuto para o Alckmin ir ao segundo turno.”

Estado de espírito
Na semana passada, uma declaração de Aloysio à BBC News Brasil – na sede das Nações Unidas, em Nova York – provocou comentários de que ele estaria apoiando Bolsonaro. Na entrevista, o ministro disse que o parlamentar “joga de acordo com as regras da democracia” e sua eventual eleição não traria “nenhum retrocesso” para as relações internacionais do Brasil.

“Eu apoiando Bolsonaro? Qual é o partido do Bolsonaro? Eu mesmo já disse que ele é um estado de espírito, não tem uma proposta política”, insistiu Aloysio ao lembrar que estava respondendo a uma pergunta sobre reportagem de capa da revista britânica “The Economist”, segundo a qual o triunfo do candidato do PSL representaria uma “ameaça à democracia”.

Apesar da ressalva, o ministro repetiu que não haverá mudanças nas diretrizes do Itamaraty, seja qual for o vencedor das eleições. “A política externa segue determinados padrões há muitas décadas, com compromissos lastreados por interesses concretos, como, por exemplo, a relação comercial com a China. O Bolsonaro iria romper com a China? Obviamente que não. É fato que a ênfase de um aspecto ou outro dessa política varia, como é o caso agora da Venezuela, mas não creio que haja grandes reviravoltas”, observou ele. “Existe um antiamericanismo ginasiano do PT e um filoamericanismo (pró-americanismo) ingênuo do Bolsonaro, mas a política externa não será mudada pelos humores do presidente.”

A propaganda de Alckmin na TV afirma, porém, que se Haddad ou Bolsonaro conquistarem o Palácio do Planalto, o Brasil correrá sério risco de se tornar “uma nova Venezuela”, país vizinho que enfrenta grave crise econômica e social. O programa destaca que todas as turbulências ali começaram com a eleição de “um salvador da Pátria”, em referência a Hugo Chávez.

“Eu não tenho a menor identidade política com nenhum desses campos”, comentou Aloysio, recusando-se a responder quem apoiará no segundo turno, caso Alckmin não passe para a próxima etapa da disputa, como indicam as pesquisas. Ao invés disso, o chanceler preferiu ironizar os efeitos de declarações polêmicas do general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro, e do ex-ministro José Dirceu (PT), correligionário de Haddad, sobre as campanhas dos adversários.

“Dirceu está para o Haddad assim como o Mourão está para o Bolsonaro. Nós não podemos, no PSDB, trilhar esse caminho”, disse o ministro. Recentemente, ao ser questionado pelo jornal El País sobre a possibilidade de o PT ganhar a eleição, mas não levar, Dirceu respondeu que seria uma questão de tempo para o partido “tomar o poder”. Mourão, por sua vez, chamou o pagamento do décimo terceiro salário de “jabuticaba”, algo que só existe no Brasil, e criticou o adicional de férias.

CLICK POLÍTICA com Estadão Conteúdo

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