NAS TVS, BOLSONARO MANTÉM O DISCURSO DE GUERRA E AMEAÇA LÍDERES DO PT E PSOL

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POR MAURO LOPES:

As três entrevistas que concedeu às redes de TV aberta na noite desta segunda-feira mostraram um Jair Bolsonaro abatido, à vontade quando sentiu-se “em casa”, com a Record e a Band, e extremamente tenso em “território inimigo”, a Globo, apesar de todas as mesuras com que foi coberto por William Bonner e Renata Vasconcellos. Nas três rodadas, foi comum o esforço dos entrevistadores de apresentarem um “Bolsonaro democrata” ao país ou, na expressão do jornalista Ricardo Noblat de “normalizarem” o presidente de extrema-direita. Como Bolsonaro reagiu? Manteve o tom de ameaça a mais da metade dos país que não votou nele. No Jornal Nacional, ameaçou diretamente os dirigentes do PT e do PSOL com a prisão e o exílio.

A entrevista de maior repercussão foi a concedida ao Jornal Nacional, por sua repercussão e significado político. Pela primeira vez desde a eleição de Fernando Collor, em 1989, a Globo foi preterida e ficou em último lugar na fila, depois da Record e da Band. Bonner e Vasconcellos comportaram-se mais como alto executivos da empresa, representantes da família Marinho, do que como jornalistas.

Bonner fez um discurso depois da rodada inicial de cumprimentos que passa à história como uma das peças mais servis da imprensa a uma autoridade, algo realmente sem precedentes. O despropósito do discurso de Bonner chegou ao ponto, ao final, o executivo dos Marinho atacar as pessoas que, segundo, ele, “insistem” em dizer que Bolsonaro não é um democrata Eis:

“Presidente nesses poucos minutos nós queremos aproveitar aqui a sua disposição para acalmar os ânimos que andaram tão acirrados ao longo desta campanha. No primeiro dia depois do segundo turno o senhor disse aqui no Jornal Nacional que será um escravo da Constituição de 1988. No último sábado, agora na sua última aparição nas redes sociais antes da eleição o senhor estava com um exemplar da Constituição nas mãos e reiterou que todas as suas ações seguiram os
postulados da Constituição. No seu discurso da vitória de ontem o senhor disse que vai defender as liberdades, vai defender a democracia. Diante disso tudo o que é que o senhor diria para aqueles que ainda insistem em dizer que a sua eleição é um risco para a democracia?”

A resposta de Bolsonaro, carrancudo como um general da ditadura, foi um petardo sobre Bonner. Seco, ele retrucou, ao fazer sua “profissão de fé democrata”: “Primeiro quero dizer a eles que chega de mentira chega de fake news”.

Na sequência, depois de ter sido convidado de maneira quase suplicante por Vasconcellos a se colocar como alguém contra a homofobia, a misoginia e o racismo, Bolsonaro voltou a a reafirmar todas as mentiras sobre o “kit gay”, que até a titubeante Justiça Eleitoral considerou uma falsicifcação grosseira durante as eleições.

A foto que ilustra esta reportagem é como um resumo do que aconteceu durante toda a entrevista. Um William Bonner todo derramado em sorrisos e mesuras e salamaleques e um Bolsonaro de cenho franzido, como um general Figueiredo sem óculos escuros.

Bonner ainda tentou ser um “pacificador” na relação entre Bolsonaro e a Folha de S.Paulo. Impossível saber se a tentativa deveu-se a um apelo dos Frias ao Marinho, mas o fato é que foi um fiasco. Bolsonaro repondeu com pedras à cândida tentativa de conciliação: “Eu não posso considerar essa imprensa [Folha de S.Paulo] digna”. A seguir deixou claro que quem não “se comportar”, quem não bajular o governo (o que Bolsonaro define como “jornalismo isento”) será tratado a pão e água: “Não quero que ela [Folha de S.Paulo] acabe, mas, no que depender de mim na propaganda oficial do governo, empresa que se comportar dessa maneira, mentindo descaradamente não terá apoio do governo federal”.

Sem se dar por vencido e confiante em seu poder, Bonner quase se esgoelou para tentar arrancar do capitão uma declaração simpática à liberdade de imprensa: “Então o senhor não quer que este jornal acabe e está deixando isso claro agora”. Foi em vão. “Por si só esse jornal se acabou”, tascou-lhe Bolsonaro.

O pior ainda estava por vir. Renata Vasconcellos fez quase um apelo a Bolsonaro para que ele amenizasse o tom de seu discurso aos milicianos bolsonaristas reunidos na avenida Paulista, em São Paulo, quando, por telefone, ameaçou os opositores com a prisão, a tortura ou o exílio.

Renata: (…) O senhor disse que os marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria. O que eu quis dizer com isso?

Bolsonaro: (…) Eu estava me referindo à cúpula do PT e à cúpula do PSOL.

Nenhuma reação dos executivos dos Marinho. Por sinal, nenhuma menção a esta ameaça explícita na mídia conservadora.

Na primeira entrevista da noite, à TV Record, que disputa com a Band o pote dourado do governo Bolsonaro para ser a Fox News brasileira (é uma rede de TV americana de extrema-direita), apresentou-se um Bolsonaro mais relaxado e cortês. Ao responder aos agradecimentos do repórter, devolveu: “Eu que agradeço o jornalismo isento da Record”. Foi uma entrevista sem sal, como um press release bolsonarista.

Na Band, também relaxado, mas menos à vontade. Bolsonaro não deixou de mostrar as garras. Disse que quando chegou ao Congresso Nacional em 1991 como deputado federal encontrou outros parlamentares, “praticamente uma centena de anistiados políticos e presos políticos, muitos bandidos terroristas assassinos”. Na entrevista, com uma mesa a separá-lo dos entrevistadores, em vez da intimidade do sofá na Record, o presidente eleito voltou a defender a ditadura como uma “não-ditadura”, convencido que em sua campanha a maioria da população convenceu-se disso: “Hoje em dia grande parte da população entende que o período militar não foi ditadura como a esquerda sempre pregou”.

Ele fez uma defesa aberta da censura à imprensa com uma tese mirabolante segundo a qual os jornalistas, na época do regime militar, usariam suas reportagens para enviar “códigos” para atentados terroristas: “A censura… Muitas vezes de acordo com o articulista a palavra chave que estava naquela matéria para executar um assalto a banco e até mesmo executar uma autoridade em cativeiro. Essa foi a censura”.

Este é o Bolsonaro que a Globo, a Record e a Band tentaram vender como um democrata ao país na noite desta segunda-feira.

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