Escândalo do videogame: depoimento de coronel pode ser a primeira pedra no sapato do presidente Bolsonaro

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De Bruno Abbud na revista Época.

Há duas semanas, o general de divisão Marco Aurélio Costa Vieira representou o presidente da República eleito em um almoço com economistas do núcleo duro do recém-anunciado “superministro” da Economia, Paulo Guedes, conforme revelou reportagem de capa de ÉPOCA . Escolhido por Bolsonaro para coordenar as reuniões do grupo técnico que formula um programa de governo no Rio de Janeiro, Vieira — nome de guerra ‘Marco Aurélio’ — é peça central, ao lado do general Antônio Hamilton Mourão, vice-presidente da República eleito, em um esquema fraudulento relatado em um dossiê de 1.452 páginas entregue ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e ao Tribunal de Contas da União a partir de 2016.

Revelado em agosto por uma reportagem do jornal El País , que obteve cópia do documento por meio do site BrasilLeaks, o material, apócrifo, traz anexada uma série de documentos que sugerem irregularidades na contratação pelo Exército brasileiro de um Simulador de Apoio de Fogo (Safo), uma espécie de videogame gigante — grande a ponto de exigir a construção de um prédio onde possa ser instalado —, que busca simular as situações vividas por soldados durante uma batalha real. A contratação do equipamento incluía uma missão de 11 meses para a Espanha, para que o produto pudesse ser testado, avaliado e adaptado. À ocasião, o Exército batizou a missão de Projeto Safo.

O coronel da reserva Rubens Pierrotti Junior foi supervisor operacional do projeto por mais de três anos. Ele comandava uma equipe de três artilheiros militares. Depois de ter falado ao jornal espanhol, foi desacreditado pelo próprio Mourão e também por militares ligados ao general. Segundo o coronel da reserva Fernando Montenegro, por exemplo, Pierrotti queria perpetuar-se na Europa às custas do Exército e foi o responsável pela confecção do dossiê. Pierrotti nega a pecha que tentam lhe impor, mas não confirma se atuou na produção do documento. Ele, contudo, endossa os acontecimentos relatados nas páginas. E conta que, antes de o dossiê vir a público, apenas ele, o tenente-coronel Eric Julius Wurts e o Tenente Coronel Silas Leite Albuquerque, ambos também integrantes do Safo na Espanha, tinham acesso a ele.

O fato é que três meses depois, o material, que engloba uma série de e-mails, minutas de contrato e relatórios internos do Exército, passou a ser alvo de investigação do Tribunal de Contas da União (TCU) — desde o fim de agosto de 2017, quando foi protocolado na Secretaria de Controle Externo da Defesa Nacional e da Segurança Pública, no tribunal. O documento descansa na mesa do relator, o ministro substituto Marcos Bemquerer Costa. A última movimentação do processo ocorreu em 16 de julho.

Na Polícia Federal, o documento apócrifo foi enviado ao setor de Inteligência da Superintendência do Rio, mas acabou encaminhado para a Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários, em Brasília.

No Ministério Público Militar, a denúncia foi arquivada duas vezes — uma em junho de 2015, outra em fevereiro deste ano. Um mês antes do último arquivamento, em 16 de janeiro de 2018, com o projeto finalizado havia dois anos, Mourão deixou um recado para o general Marco Aurélio Vieira no Facebook: “Amigo precisamos conversar uu sobre simulação. Abraço (sic)”. Na linguagem da caserna, a sigla “uu” é usada para assuntos urgentíssimos. Na sequência, Mourão complementou: “Irei te ligar. Abraço”.

Depois que o caso veio a público, Pierrotti anda assustado. No início de outubro, ele esperava a reportagem de ÉPOCA em uma estação de metrô. Sem dizer uma só palavra, pediu para ser seguido. Guiou o repórter pelo braço, a passos rápidos. Entrou em um trem e percorreu o interior dos vagões de uma ponta a outra. Quando a luz vermelha anunciou o fechamento das portas, decidiu saltar do vagão. Depois foi a uma livraria, onde se sentiu seguro ao perceber que não estava sendo seguido: “Quando você lida com alguns milhões de dólares, tem de tomar certa cautela”.

Pierrotti passou 33 anos no Exército, trabalhou como instrutor da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (Esao) — o que é sinônimo de prestígio na caserna —, tem ao menos oito medalhas e distintivos militares e diz ter pedido para ser desligado do Projeto Safo, em março de 2014, porque estava descontente com o que viu durante seu desenvolvimento. Ele hoje trabalha como advogado no Rio de Janeiro.

Segundo contou a ÉPOCA, a empresa espanhola Tecnobit, fornecedora do simulador, descumpriu com obrigações de reparar erros apontados pelo corpo técnico do Exército brasileiro e não seguiu partes do contrato — mesmo assim, por causa de uma relação nebulosa com os generais brasileiros envolvidos, o negócio foi adiante.

A licitação do simulador, conduzida pela Comissão do Exército Brasileiro em Washington (CEBW) entre julho e outubro de 2010, foi realizada apesar de pareceres contrários dos setores responsáveis do Exército. Antes de adquirir um simulador de artilharia de campanha, o Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx) pediu pareceres sobre a necessidade do produto aos cursos de artilharia da Aman e da Esao, e também ao Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT). Todos deram pareceres contrários à compra do simulador.

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