Joaquim Levy é o ‘plano B’ para sucessão de Guedes

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Do Infomoney – Pode causar estranheza, à primeira vista, o fato de Joaquim Levy ter deixado o cargo de diretor financeiro do Banco Mundial para ser presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), órgão que deve perder parte do espaço que tem hoje dentro do governo federal sob a batuta de Jair Bolsonaro (PSL).

Tanto que uma reportagem do site BR18 desta semana traz a informação de que a troca feita por Levy teria o objetivo de colocá-lo na “fila” para voltar ao comando da economia e colocar o país de novo na trilha do crescimento. Vale lembrar que ele teve uma passagem frustrada de 351 dias pelo Ministério da Fazenda no governo de Dilma Rousseff.

Na época, ele iniciou seu trabalho com apoio quase irrestrito do mercado financeiro, que depositou em Levy toda a esperança de ajuste nas contas públicas e redução do déficit fiscal. O “Chicago Boy” assumiu a Fazenda com fortes críticas sobre o patrimonialismo e as políticas setoriais. De maneira resumida, Levy assumiu o posto em situação muito semelhante à de Paulo Guedes, futuro ministro da Economia de Bolsonaro.

O prometido ajuste fiscal de Levy não veio, mas não dá para dizer que ele não trabalhou por isso. O então ministro trabalhava até as 2h da manhã no ministério rotineiramente, era exigente com sua equipe e trocava de assessores com frequência.

Assim, estar nessa eventual “fila” para comandar a economia seria um “ganha-ganha”: Levy poderia “limpar” a imagem de fracasso deixada no governo Dilma e Bolsonaro teria um “plano B” em caso de eventual desentendimento com seu guru econômico.

“Levy é um seguro liberal para o Bolsonaro. Só não sei se o Guedes se deu conta disso”, disse um conhecido de ambos para a jornalista Vera Magalhães. Para outra fonte, Levy “será para Guedes o que Delfim Netto foi para Mário Henrique Simonsen em 1979?: uma sombra. ?Constantemente olhando por cima dos seus ombros”, acrescentou.

No entanto, o cientista político e diretor da Pulso Público Vítor Oliveira não enxerga motivos para essa especulação. “O risco de um enfrentamento entre os dois [Bolsonaro e Guedes] seria de uma agenda mais liberal que contrasta com uma desenvolvimentista. Acho difícil que um desentendimento com Paulo Guedes tenha um ‘back up’ liberal. Se houver desentendimento, a opção será outra, com mais trânsito político”, avalia.

Neste caso, o “fazer política” não é necessariamente um ponto fraco de Levy. Consciente da importância do Congresso na aprovação de medidas, Levy fazia pessoalmente o corpo a corpo com deputados e senadores quando era ministro da Fazenda. Foi o embate com a presidente Dilma, e as constantes críticas do PT, que o tiraram do comando da economia já cambaleante.

Do outro lado, Guedes já chateou parlamentares ao defender uma “prensa” no Congresso para que a reforma da Previdência fosse votada ainda neste ano. A declaração foi mal recebida pelos congressistas, que recomendaram aos assessores de Bolsonaro “cuidado com as palavras”.

Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, não acredita na possibilidade de futuros desentendimentos entre Bolsonaro e Guedes por discordâncias sobre pautas liberais. “Não vejo ingerência de Bolsonaro no processo”, disse Vieira, destacando que a própria indicação de Levy para o BNDES teria sido aconselhada por Guedes.

Embora não veja nenhuma “fila” para o superministério da Economia, Vítor Oliveira destaca que a gestão de Guedes pode ter “prazo de validade” caso não consiga adotar as medidas que pretende para a economia. “Ele tem que entregar reformas, melhora da economia, ou pode chegar o momento em que uma troca seja necessária”, explicou.

Pode ser que Levy não seja exatamente uma ameaça ao trono de “guru econômico” de Bolsonaro, cargo hoje dominado sem hesitação por Guedes, mas o futuro superministro tem uma grande tarefa a cumprir – e outros já fracassaram tentando executá-la.

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