Perseguido, Lula pode ser o primeiro brasileiro com o Nobel da Paz

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A canalhice protagonizada pelas autoridades brasileiras contra Lula pode custar muito caro aos detratores do ex-presidente. Poderá contribuir, muito, para fazer de Lula o primeiro brasileiro a ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Nos anos 1970, Dom Helder Câmara chegou muito perto. Mas a ditadura militar vigente naquela época pressionou as autoridades internacionais e conseguiu barrar a homenagem.

Nessa quarta-feira, Lula foi vítima de um plano sórdido que o impediu de assistir ao funeral e ao enterro do irmão Vavá. A juíza Carolina Lebbos, que substitui Sérgio Moro na Lava Jato, segurou até onde pode a resposta ao pedido dos advogados de Lula para que ele fosse aos funerais do irmão.

Perto de o enterro acontecer, ela remeteu o caso à Polícia Federal que postergou até onde pode, Fez o mesmo o Ministério Público. O veto, em coro, veio quando faltavam algumas horas para o enterro. A PF, subordinada a Moro (hoje ministro da Justiça) alegou problemas de ordem logística e de segurança.

O MPF, pela voz do procurador Deltan Dallagnol, ultrapassou a barreira do ridículo e disse temer que a liberação de Lula para o enterro afetasse até as burcas por corpos na lama de Brumadinho, cidade mineira onde ocorreu o maior ambiental do Pais, obra e graça da negligência da mineradora Vale, a mesma responsável por outro crime ambiental, há três anos, na cidade mineira de Mariana.

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Quando o corpo de Vavá já estava baixando à sepultura, veio a cereja do bolo podre. De cara lavada, o presidente do STF, Dias Toffoli “autorizou” Lula a ir ao velório. Além de não dar nem mais tempo, Toffoli impôs condições grotescas, como a de o corpo ir até Lula em vez de Lula ir até o corpo. E tudo acontecer dentro de uma unidade militar.

Mas, voltando ao Nobel da Paz. A patacoada sem graça, suja e desumana que armaram contra Lula estourou na mídia internacional. E é o tipo da injustiça que pode acabar sendo a mola propulsora do prêmio, pela primeira vez, a um brasileiro. A ideia da homenagem a Lula é do argentino e também Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel que a lançou em abril do ano passado (2018). Isto gerou uma onda de apoio internacional. O abaixo-assinado pedindo o Nobel para Lula já tem mais de 600 mil assinaturas.

O Brasil nunca teve um vencedor do Nobel, muito menos o da Paz. Quem esteve mais perto disso não conseguiu por pressões diplomáticas. Foi o ex-arcebispo-emérito de Olinda e Recife Dom Helder Câmara, várias vezes lembrado. Nos anos 1970, a indicação foi duramente boicotada pela ditadura militar que governava o Brasil. A pressão mais forte e que ficou documentada foi a do presidente-general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), cujo governo é tido como o mais truculento e arbitrário de todo o período militar.

De acordo com o livro “Prêmio Nobel da Paz: A atuação da ditadura militar brasileira contra a indicação de Dom Helder Câmara”, lançado em dezembro de 2015 pela Comissão Estadual da Memória e Verdade, de Pernambuco, Médici usou de tudo e conseguiu intervir junto a governos amigos na Europa para barrar a iniciativa. Dom Helder denunciava, no Exterior, as atrocidades e torturas da ditadura brasileira.

“Ele foi sucessivamente, durante três anos, indicado e rejeitado graças a essas intervenções do governo brasileiro. Nós conseguimos até, junto ao Itamaraty, uma série de documentos que comprovam, sem sombra de dúvida, essa intervenção. Por exemplo, há correspondências entre o embaixador do Brasil em Oslo (Noruega) e o Itamaraty dando notícia das providências que tinha tomado e as dificuldades que estava encontrando”, disse, na época, o advogado Fernando Coelho, que presidiu a Comissão. Coelho revelou um trecho do livro que é bem elucidativo: “Entre as correspondências, na terceira indicação, o embaixador (brasileiro) disse: ‘não temos mais o que dizer; dessa vez está correndo o risco dele vir a ser'”.

Dom Helder Câmara, que era cearense, foi arcebispo-emérito de Olinda e Recife durante os “anos de chumbo”. Ele chegou ao Recife no mês do golpe militar (março de 1964) e deixou o cargo em julho de 1984. Foi, ao longo deste período, uma das figuras mais odiadas e combatidas pelos militares. Tornou-se um dos artífices da Teologia da Libertação, que defendia uma Igreja voltada para os interesses do povo mais pobre, como preconizaram as conferências episcopais latino-americanas (CELAM) de Medellín (Colômbia, 1968) e Puebla (México, 1979), responsáveis pela guinada à esquerda da Igreja Católica na América Latina, na época repleta da governos ditatoriais.

Dom Helder, que não ganhou o Nobel, mas ficou conhecido mundialmente como o Dom da Paz, morreu em 7 de fevereiro de 1999, aos 90 anos de idade.

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