Vídeo mostra agressões a grupo de brasileiros na Irlanda: 'Chamaram de macaco'




Embaixada Brasileira afirmou que vê com preocupação os ataques motivados por xenofobia contra brasileiros e que acompanha as investigações com autoridades policiais. Vídeo flagrou atacado a grupo de brasileiros em Dublin, na Irlanda
Reprodução
Brasileiros que vivem em Dublin, na Irlanda, denunciam que estão sendo perseguidos por um grupo de moradores locais pelo fato de serem imigrantes. Um vídeo registrado na semana passada flagrou um ataque xenófobo a brasileiros que trabalham como entregadores na capital irlandesa. (Veja o vídeo abaixo)
Nas imagens é possível ver um grupo de garotos provocando trabalhadores que aguardavam para fazer entregas. Os adolescentes jogam ovos, gritam xingamentos, danificam bicicletas e agridem alguns entregadores. O ataque foi em uma movimentada avenida, que teve o trânsito interrompido.
Os garotos irlandeses arremessam bicicletas na direção dos brasileiros e ficam a todo momento chamando para um confronto.
Grupo de irlandeses ataca estrangeiros que trabalham como entregadores em Dublin
Há dois anos e sete meses no país, o sorocabano Junior Ferreira da Costa diz que escapou por pouco dos agressores recentemente. Em entrevista ao G1, ele conta que havia ido jogar bola com um amigo brasileiro à noite e, no caminho de volta para casa, os dois foram abordados por cerca de 20 adolescentes, de 15 a 17 anos, mas conseguiram fugir correndo.
Perseguição a entregadores foi destaque na imprensa local
Reprodução/The Irish Times
“Isso já ocorre há muito tempo, de uns quatro anos para cá. As autoridades sabem, mas, por serem menores de idade, eles são intocáveis. Eles nunca atacam sozinhos, sempre em grupos de 10 ou mais pessoas e pegam gente que está sozinha ou em dois, três, porque fica difícil revidar. Está se tornando diário isso”, explica.
De acordo com o jovem, de 28 anos, os ataques são realizados por adolescentes conhecidos como “nakers” ou “nanas” principalmente contra brasileiros, mexicanos, bolivianos e venezuelanos, mas alguns irlandeses também são vítimas.
“Uma vez eu estava conversando com o meu cunhado em português, chegou um homem de aproximadamente 45 anos e começou a nos ofender.”
“Me chamaram de imigrante de merda, macaco. Disse: ‘Volte para o seu país de merda, não precisamos de vocês aqui’, lembra.
Em novembro do ano passado, a esposa de Junior foi vítima de abuso sexual nas ruas de Dublin. “Ela estava andando na rua às 15h quando passaram três pessoas, deram um tapa na bunda dela, saíram correndo e entraram em um táxi. Tem B.O. e tudo mais, mas até agora nada foi feito.”
Engenheiro civil de 31 anos foi atacado por 11 pessoas na noite de domingo (17)
Arquivo pessoal
Caso mais grave
O caso mais grave registrado nos últimos dias foi o de um engenheiro civil de 31 anos, que pediu para não ser identificado. O jovem está na Irlanda há oito meses. Ele havia acabado de renovar o intercâmbio por mais oito meses, quando foi atacado por 11 pessoas, na noite do último dia 17.
“Fui fazer uma entrega em Finglas. Chegando lá, o número da casa e o telefone do cliente estavam errados e liguei no restaurante. Só deu tempo de desligar o telefone e fui surpreendido por vários caras, eles saíram de dentro do mato, por todos os lados”, conta.
“Eles me deram muitas pancadas na cabeça, enquanto uns levaram a moto, outros me batiam e pegaram minha carteira. Tiraram a grana e jogaram ela para cima.”
O rapaz quebrou o nariz e sofreu várias escoriações pelo corpo. Ele conta que um homem que estava de carro viu a cena, mas não fez nada. O brasileiro foi socorrido por um taxista e levado para um posto policial. O boletim de ocorrência foi registrado no dia 20.
Embora o plano de saúde do engenheiro civil seja privado, ele precisou ir a três hospitais e esperou horas para ser atendido. Três dias depois, acabou voltando para o Brasil para passar as férias e cuidar da saúde. Mesmo com medo de novos ataques, já marcou o retorno a Dublin para 22 de março.
Por conta do olho inchado, jovem não conseguiu ir trabalhar no dia seguinte
Arquivo pessoal
‘Vá embora do meu país’
Situação parecida viveu uma jovem de 29 anos, que também não quis se identificar. O ataque aconteceu na madrugada do dia 17.
“Minha amiga e eu estávamos voltando para casa quando uma menina, que aparentava ter 15 anos, começou a correr na nossa direção gritando ‘o que vocês estão olhando?’. Ela veio para cima de mim, eu a empurrei e nós saímos correndo. Daí vieram três para cima de mim e duas na minha amiga. Sorte que ela achou um copo de cerveja e usou para ameaçá-las”, lembra a brasileira, que mora na capital irlandesa há cerca de 11 meses.
Ela conta que foi jogada no chão, levou puxões de cabelo e chutes na cabeça. Por conta da dor no corpo e do olho inchado, ela não conseguiu ir trabalhar no dia seguinte e procurou a polícia e o Consulado Brasileiro na Irlanda para relatar as agressões.
“Enquanto elas me batiam, falavam: você não é daqui, não tem que estar aqui. Vá embora do meu país”, conta.
Cerca de 200 brasileiros se reuniram para conversar sobre melhorias
Rubinho Vitti/E-Dublin
Gota d’água
O ataque contra entregadores na quarta-feira (20), que ganhou repercussão na internet e na imprensa local, foi a gota d’água para cerca de 200 brasileiros que moram em Dublin. O grupo se reuniu no dia seguinte para conversar sobre melhorias com representantes da empresa que contratou os trabalhadores.
Além disso, os imigrantes marcaram um protesto contra qualquer tipo de agressão verbal e física para o próximo sábado (2), das 14h às 18h, na O’Connell Street.
O ato está sendo organizado pelo paulistano Raphael Duarte, que mora em Dublin há quase quatro anos e trabalha como entregador. Em 2015, ele mesmo já sofreu perseguição por ser imigrante.
“Naquela época não era tão escancarado como agora. Hoje já está começando a ficar aquela dúvida: há mesmo segurança?”, questiona.
Brasileiros estão organizando um protesto contra a violência para sábado (2)
Reprodução/Facebook
Preocupação
Em nota, a Embaixada Brasileira em Dublin disse que os casos de violência a brasileiros têm sido notificados de forma esparsa e isolada. No fim de semana de 16 e 17 de fevereiro, contudo, três casos foram levados à Embaixada e motivaram reação imediata do Setor Consular, que entrou em contato com a polícia local para transmitir a preocupação da comunidade brasileira.
O setor tem acompanhado as investigações dos casos junto às autoridades locais, mas afirma que as apurações ainda estão em fase inicial e não há informações sobre suspeitos responsáveis pelas agressões.
“É importante que os brasileiros que sejam vítimas de crimes na Irlanda compareçam à delegacia de polícia mais próxima ao local onde o crime ocorreu e registrem a ocorrência. Orientamos brasileiros nessa situação a entrarem em contato com o Setor Consular da Embaixada”, diz a nota.
Procurado pelo G1, o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) disse que já foi informado por sua Embaixada em Dublin dos recentes casos de agressões a brasileiros.
Imprensa irlandesa repercutiu o ataque a entregadores na quarta-feira (20)
Reprodução/Nova
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