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A cidade em que a tensão étnica impede que vizinhos tomem café juntos

por Portal Click Política




Desde a Guerra do Kosovo, no final dos anos 90, sérvios e kosovares de origem albanesa vivem ‘juntos mas separados’ em clima tenso, que pode ser resolvido por troca de terras e redefinição da fronteria. Albaneses e sérvios só se sentam juntos num café para tratar de negócios
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É a sua etnia que determina onde você toma café na cidade sérvia de Bujanovac, perto da fronteira com Kosovo.
“Os albaneses e os sérvios não frequentam os mesmos bares”, diz Valon Arifi, de etnia albanesa.
A população da cidade é majoritariamente sérvia, mas na região como um todo os albaneses são mais numerosos.
É por isso que o Vale de Presevo tem estado no centro de uma especulação sobre um possível acordo de troca de terras para acabar com a inimizade entre Sérvia e Kosovo.
“(As pessoas aqui) só tomam café juntas se estão fazendo negócios”, diz Valon. “Mas beber juntas como amigos? Isso não acontece.”
E se você pedir um expresso no café “errado” em Bujanovac, logo captará a mensagem.
“Você pode ler a senha do wifi, algo como: ‘albaneses não são bem-vindos aqui’. E em bares albaneses, pode ser algo assim contra os sérvios”, diz ele.
A separação étnica determina o cotidiano dos moradores no vale de Presevo, uma região pobre da Sérvia.
Onde você mora, a escola onde seus filhos estudam, a língua que você fala e se você vai a uma igreja ou a uma mesquita, tudo isso reflete sua origem.
Por que trocar de território?
A tensa relação entre sérvios e kosovares de origem albanesa tem sido delicada desde o final da Guerra de Kosovo, em 1999. A Sérvia nunca reconheceu a independência do Kosovo, declarada em 2008.
Mas a União Europeia diz que só aceita negociar a entrada da Sérvia no bloco depois de ela fazer um acordo com o vizinho. Kosovo, por sua vez, quer o reconhecimento formal na ONU, que está bloqueada pela Rússia, aliada da Sérvia.
Por isso, uma solução dramática – para alguns, impensável – para acabar com a ruptura seria justamente a troca de território ao longo de divisões étnicas.
Aridona Shabani (à dir) diz que sua mãe, Xhevahire, não pode tomar café com os sérvios que conhece
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Kosovo ganharia o vale de Presevo, e a região predominantemente sérvia do norte de Kosovo se tornaria parte da Sérvia.
Mas nada foi decidido, e ninguém sabe ao certo onde seriam as novas fronteiras.
Em Bruxelas, as conversações entre os dois lados estão paradas. Mas as tensões têm aumentado – Kosovo, por exemplo, impôs tarifas de 100% sobre mercadorias sérvias.
Agora, há pressão de Washington. O presidente Donald Trump fez um apelo direto aos líderes de Sérvia e Kosovo, pedindo para que declarem paz.
A noroeste de Bujanovac, ainda mais perto da fronteira com Kosovo, a comunidade de Trnovac é exclusivamente albanesa.
A proposta de que o Vale do Presevo seja anexado a Kosovo não é nova. Após a guerra, Trnovac se tornou bastião de uma força paramilitar que lutou contra a Sérvia até 2001, com o objetivo de alcançar exatamente isso.
Aridona Shabani, que veio passar as férias da faculdade de medicina na capital albanesa, Tirana, com seus pais, diz que também gostaria.
Caso peça café no lugar errado, poderá ver uma mensagem na rede do wi-fi de que você não é bem vindo
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Crescendo, ela nunca teve nenhum amigo sérvio e fala pouco sérvio. “Eu não gosto da língua”, diz ela. “Não é interessante como inglês ou francês.”
Sua mãe, Xhevahire, não pode tomar café com os sérvios que conhece, mas fala a língua.
“Na antiga Iugoslávia, sérvios e albaneses viviam juntos”, ela reflete.
“Mas esta geração cresceu em tempos de guerra, quando o ódio foi promovido. Essas duras experiências fizeram os jovens se afastarem uns dos outros.”
Alguns quilômetros a leste, Rakovac fica ao longo de uma estrada cercada por campos de repolho.
“Rakovac é uma aldeia sérvia muito antiga. Não queremos fazer parte de Kosovo”, diz Vukasin, que tem pouco mais de 20 anos e pediu para que seu sobrenome fosse preservado.
Se a fronteira fosse redesenhada e Rakovac se tornasse parte de Kosovo, haveria risco de violência?
Hevzi Imeri, etnicamente albanês, e Danilo Dabetic, que é sérvio, são ambos aspirantes a jogadores profissionais e grandes amigos
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“Isso pode acontecer”, diz Dragoslav, que, como muitos na região, está desempregado e ganha a vida cortando e vendendo madeira.
Cansado da política, o sérvio Stojko Janic lamenta o abismo que cresceu entre as comunidades.
“Trabalhei com albaneses durante 17 anos”, lembra ele. “Eu tive melhores amigos entre eles do que entre os sérvios. Eles ainda querem ser meus amigos, mas têm medo de serem vistos comigo, porque serão vistos como traidores de sua comunidade.”
Em uma área, pelo menos, ainda existem fortes laços entre as etnias locais, apesar de todas as divisões.
Na quadra de basquete Play 017, em Bujanovac, jovens de origem sérvia, albanesa e roma (cigana) treinam juntos.
“Crescemos jogando todos juntos, mas as coisas mudaram por causa da guerra”, diz o fundador do clube, Nenad Stajic, que é sérvio.
Na quadra de basquete Play 017, em Bujanovac, jovens de origem sérvia, albanesa e roma treinam juntos
Play 017
“Eu tenho uma filosofia: em todos os lugares do mundo, as crianças choram da mesma forma, não há diferença entre elas. Os jovens aqui aprendem a viver juntos, trabalhar juntos e fazer amigos”.
Hevzi Imeri, etnicamente albanês, e Danilo Dabetic, que é sérvio, são ambos aspirantes a jogadores profissionais e grandes amigos.
“Danilo é como meus amigos albaneses, só que ele fala uma língua diferente”, diz Hevzi, que fala bem sérvio.
E essa é uma parceria que desafia a grande divisão da cultura do café em Bujanovac.
“Nós saímos para tomar café, sair, ir a festas de aniversário juntos”, diz Danilo.
Mas tudo isso pode mudar se as fronteiras do vale de Presevo forem redesenhadas.

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