As regras que impediam uma guerra nuclear acabaram?




Os antigos tratados de controle de armas estão se desfazendo, e o retorno de antigas inimizades entre as principais potências globais geram dúvidas sobre a possibilidade que estes países cheguem a novos acordos. Após o fracasso da mais recente cúpula Trump-Kim, não está claro onde a política dos EUA para a Coreia do Norte está indo
Reuters/Leah Millis
“Estamos caminhando em um campo minado e não sabemos de onde virá a explosão.”
O alerta foi feito por Igor Ivanov, ex-ministro das Relações Exteriores da Rússia, na influente Conferência sobre Política Nuclear, da Fundação Carnegie em Washington, nos Estados Unidos.
“Se os Estados Unidos, a Rússia e a China não trabalharem juntos, será um pesadelo para nossos filhos e netos”, ecoou Sam Nunn, ex-senador americano e antigo ativista de controle de armas.
Ele incentivou os líderes atuais a repetirem a abordagem adotada pelos presidentes Ronald Reagan (Estados Unidos) e Mikhail Gorbachev (União Soviética) no final da Guerra Fria. E a apoiarem a premissa de que a guerra nuclear não pode ser vencida e, portanto, nunca deve ser considerada.
Reagan sonhava com defesas antimísseis, mas isso não o impediu de negociar um amplo acordo de desarmamento nuclear com o colega soviético.
Os esforços levaram ao Start, ou Tratado de Redução de Armas Estratégicas, que passou a vigorar em 1994 e reduziu o estoque de armas das duas superpotências nucleares.
Hoje, o futuro do sucessor do acordo – o chamado Novo Start – está em xeque. O tratado das forças nucleares de alcance intermediário (INF) entrou em colapso depois que os Estados Unidos e a Rússia deixaram de apoiá-lo.
Para o presidente americano, Donald Trump, os russos quebraram o acordo por anos, mas o presidente da Rússia, Vladimir Putin, nega.
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) apoia a visão de Washington, mas os aliados dos Estados Unidos criticam muito a abordagem de Trump sobre assuntos internacionais, como ficou claro na conferência.
Corremos o risco de uma guerra travada ‘por engano’?
Em sua palestra na Conferência sobre Política Nuclear, em Washington, a embaixadora da Alemanha nos Estados Unidos, Emily Haber, falou em “erosão do sistema de regras” que regulava o sistema internacional.
Para ela, o amplo uso de sanções econômicas punem países em vez de moldarem suas condutas futuras – crítica indireta às sanções americanas contra a Rússia após a invasão da Crimeia em 2015.
A embaixadora alemã também criticou a série de provocações de Putin, que, segundo ela, corroeram a confiança global e o processo diplomático.
Mas, como muitos palestrantes da conferência enfatizaram, não há apenas o desmoronamento do antigo acordo de controle de armas ou o aumento das tensões entre superpotências nucleares. Eles temem que algo novo e perigoso esteja se aproximando.
O presidente dos EUA, Donald Trump, entrou em choque com líderes europeus, incluindo a chanceler alemã Angela Merkel
REUTERS/Jonathan Ernst
Imagine mísseis altamente precisos voando a velocidades hipersônicas, armas cibernéticas, a possível militarização do espaço, o impacto da inteligência artificial e assim por diante.
Todo o sistema de alerta sobre o qual a dissuasão nuclear se sustenta poderia ser minado.
Como disse o ex-senador americano Sam Nunn: “Nesta nova era, é muito mais provável que haja guerra por engano ou erro de cálculo – por interferência de terceiros – do que por um ataque premeditado”.
Esta não foi uma conferência para elevar os espíritos. Sua mensagem era profundamente deprimente.
Há acordo no horizonte?
O tratado das forças nucleares de alcance intermediário, ou INF, pode ser ressuscitado e ainda atrair a China? Esqueça essa possibilidade, afirma Andrea Thompson, subsecretária de Estado para Controle de Armas dos Estados Unidos.
É possível então que o tratado do Novo Start seja salvo? O tempo é curto. O acordo expira no início de fevereiro de 2021.
E, embora as apresentações de funcionários do alto escalão dos Estados Unidos e da Rússia tenham reconhecido sua utilidade, houve pouco entusiasmo por qualquer prorrogação.
O Novo Start não deve ser cancelado ainda, mas pode se tornar uma vítima do clima hostil entre Washington e Moscou.
Também não havia boas notícias para a conferência sobre outro princípio da diplomacia de Trump – o prometido acordo nuclear com a Coreia do Norte.
Na cúpula de Hanói, Trump fez uma grande barganha com Pyongyang. Mas seu colega norte-coreano só estava preparado para sacrificar uma pequena parte do programa nuclear de seu país, exigindo em troca a suspensão de sanções econômicas. Trump escolheu ir embora.
Stephen Biegun, o representante especial dos Estados Unidos para a Coreia do Norte, afirmou que a posição do governo Trump endureceu. Mas, apesar de todos os esforços de Biegun para mostrar o raciocínio do presidente como coerente e crível, não há consenso sobre o rumo da política dos Estados Unidos para a Coreia do Norte.
Há algo preocupante em curso
Se os tratados que limitam armas à moda antiga estão se desfazendo, será mais difícil concordar com medidas para controlar as novas armas? A era do controle tradicional de armas acabou?
Havia um consenso – de russos, europeus e americanos – de que um diálogo sobre a estabilidade estratégica entre Washington e Moscou é urgentemente necessário.
Isso não será fácil, dada a constante investigação sobre os esforços do governo russo para interferir na eleição presidencial americana de 2016, ou as ações de Putin na Síria e na Ucrânia.
No auge da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética se ameaçaram com destruição mútua. Isso produziu um sistema de tratados e entendimentos, mas parece que o antigo livro de regras já foi descartado.
Antigas inimizades estão de volta e podem ser mais perigosas do que nunca, dada a aparente falta de qualquer mecanismo ou disposição para administrar essas crescentes tensões.

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