Imigrantes relatam preocupação e medo com parentes após últimas manifestações na Venezuela




Nos últimos dias, conflito político se agravou no país. Segundo dados da Casa Civil, 283 venezuelanos, que passaram pelo processo de interiorização, estão no Estado do Rio. O G1 conversou com imigrantes que recomeçaram a vida na Região Serrana. Na foto, Samuel (à direita) aparece ao lado do irmão e da avó. Ela continua na Venezuela
Samuel Visbal/ Arquivo Pessoal
Imigrantes venezuelanos que saíram do país por causa da instabilidade política e econômica relatam preocupação e medo com relação aos parentes que ficaram no país. Nos últimos dias, manifestações deixaram cinco mortos e centenas de feridos na Venezuela, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Com isso, houve um aumento de pessoas deixando o país.
Entenda a crise da Venezuela
Segundo dados da Casa Civil, que cuida do fluxo migratório no Brasil, só no Estado do Rio existem 283 venezuelanos, que chegaram pela fronteira e passaram pelo processo de interiorização, ou seja, manifestaram a vontade de permanecer definitivamente no país no período de um ano.
O G1 entrevistou venezuelanos que recomeçaram a vida em Petrópolis. Samuel e Sheila se conheceram no dia da entrevista
Aline Rickly /G1
O G1 conversou com imigrantes que recomeçaram suas vidas na Região Serrana do Estado. Eles deixaram o país de origem em busca de mais liberdade e qualidade de vida, mas estão apreensivos com os que ficaram por lá.
Além de tentar contato diariamente, eles também ficam atentos às notícias publicadas na internet, como contou o estudante universitário, Samuel Visbal, de 19 anos. Ele é de Caracas e está em Petrópolis desde 2014, com os pais.
“Sinto muita saudade da minha família. Se as pessoas soubessem como faz falta…Gostaria que todos estivessem aqui por perto”, disse.
Ele conta que as avós vieram há dois anos para o Brasil e que uma delas chorou quando entrou em um supermercado e viu a grande oferta de alimentos. “Na Venezuela, ela chegava a ficar por seis horas na fila para comprar uma quantidade específica de itens”, revelou.
Já a enfermeira Sheila Mercedes Guevara Diaz, de 35 anos, também está há cinco anos no Brasil e, ao longo desse tempo, deu suporte para alguns amigos que também decidiram deixar o país. A família tem vindo aos poucos.
O irmão e a mãe de Sheila chegaram há menos de um ano no Brasil. Na foto, o irmão com a namorada, Sheila e a mãe
Sheila Guevara/ Arquivo Pessoal
“Minha mãe e meu irmão estavam muito resistentes, mas no ano passado viram que não tinha jeito e também vieram. Em abril, chegaram mais uma tia e uma prima. Minha avó e meu pai continuam na Venezuela e não querem sair, assim como outros parentes”, contou.
Segundo Sheila, uma parte da família faz apenas uma refeição por dia, devido ao racionamento de alimentos, mas eles têm medo de enfrentar a vida em um novo país, com uma língua diferente. “E não é fácil mesmo!”, disse.
Por outro lado, ela diz que a situação na Venezuela está insustentável. “O país regrediu por completo. A minha tia tinha uma pizzaria lá há oito anos e não conseguia mais matéria-prima. Resolveu vir para o Brasil porque fica mais perto e qualquer coisa, se o sistema político mudar, ela pensa em voltar à Venezuela”, afirmou Sheila.
Mudança de planos
Sheila nasceu em Puerto Ordaz, no Estado Bolívar, e tinha o sonho de fazer uma especialização na Austrália. Ela conta que estava se planejando, juntando dinheiro, quando a moeda se desvalorizou em 2014 e a quantia que tinha guardada já não seria suficiente para ir para outro Continente.
“Percebi que tinha que sair do país e vi no Brasil uma oportunidade porque era mais perto”, conta.
Atualmente, ela administra um salão de beleza e um restaurante, que montou com duas amigas venezuelanas e oferece pratos típicos. Porém, o sonho de Sheila é voltar a exercer a profissão de enfermeira.
“Depois de três anos vivendo aqui, consegui revalidar meu diploma na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas ainda não consegui a carteira do conselho para poder exercer a profissão”, lamenta.
O G1 entrou em contato com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) para saber quais são as exigências e por quais motivos a venezuelana ainda não conseguiu a liberação para trabalhar na área no país e aguarda respostas.
Quando olha para trás, Sheila acredita que saiu da Venezuela na hora certa, lembra que a situação já estava crítica naquela época e só piorou deste então.
“Você tinha liberdade e, de repente, começam a cortar todos os espaços onde você toma decisões. No Brasil, pelo menos, temos liberdade de trabalhar e decidir o que vamos comprar, onde é que vamos investir o salário que recebemos”.
Contexto político
Venezuela vive momentos de protestos contra o governo Maduro nesta semana
REUTERS/Manaure Quintero
O professor de História da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), Leandro Gavião, explica que a situação na Venezuela pode ser caracterizada por “uma polarização política sem precedentes”.
De acordo com ele, o contexto já era sensível durante o governo de Hugo Chávez, mas agravou-se ao longo da má gestão do atual presidente Nicolás Maduro.
Para este sábado (4), o autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, anunciou em rede social que ele e seu grupo vão se mobilizar, nas “principais unidades militares em todo o país” para irem às ruas de Caracas, a partir das 10h (11h, no horário de Brasília).
“A intensificação dos protestos contra Maduro foi acompanhada por uma correspondente escalada da repressão por parte do Estado, agravando-se ainda mais diante da pior crise econômica já experimentada pelo país em sua história recente, sendo acompanhada por uma elevação dos índices de criminalidade e de violência urbana”, disse Leandro.
O professor que também é doutor em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explicou ainda o motivo que levou a constante saída de venezuelanos do país.
“Neste cenário, a reação do governo tornou as perspectivas de mudança ainda mais distantes, ao passo em que a escassez de produtos básicos – incluindo alimentos – se tornou algo cotidiano para um número cada vez maior de venezuelanos”.
De acordo com Leandro, foi essa situação de derretimento da estabilidade política, econômica e social, que levou à busca por refúgio em países vizinhos: “Dentre os quais o Brasil, pois esta [a busca por refúgio] se tornou uma das poucas alternativas disponíveis para aqueles que tentam recomeçar suas vidas”, concluiu.
Veja outras notícias da região no G1 Região Serrana.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

For security, use of Google's reCAPTCHA service is required which is subject to the Google Privacy Policy and Terms of Use.

I agree to these terms.