Desta vez, Trump ajudou os democratas




Com mensagem racista e xenófoba a deputadas progressistas, presidente americano conseguiu unir o partido adversário, fragmentado em disputas internas. Presidente Donald Trump, dos EUA, durante discurso no dia 12 de julho
Mandel Ngan / AFP
O presidente Donald Trump praticamente agiu como um pacificador do Partido Democrata ao tentar explorar, com uma mensagem xenófoba e racista, a cisão interna que a bancada opositora vem enfrentando. Pelas redes sociais, sugeriu a quatro congressistas americanas que voltassem a seus países de origem para ajudar a consertar “os lugares totalmente quebrados e infestados de crimes de onde vieram”.
Em vez de aprofundar a divisão de seus adversários, Trump voltou a unificar os democratas, pelo menos temporariamente, torno do que deveria ser o objetivo principal: impedir sua reeleição nas eleições do próximo ano.
As quatro congressistas que Trump mandou voltar para casa são cidadãs americanas e foram eleitas no ano passado, justamente como uma reação a ao discurso incendiário que alimenta correligionários do presidente. Deram mais diversidade à Câmara dos Representantes, agora com maioria democrata.
Três delas nasceram nos EUA: Alexandria Ocasio-Cortez tem ascendência porto-riquenha, Ayanna Pressley é a primeira negra a ser eleita pelo estado de Massachussets, e Rashida Tlaib é filha de palestinos. Apenas Ilhan Omar imigrou criança para os EUA, fugindo com a família da guerra civil na Somália.
A deputada Alexandria Ocasio-Cortez na porta de seu gabinete, em vídeo que postou em rede social
Reprodução/Twitter/Alexandria Ocasio-Cortez
Essa ala novata do Partido Democrata integra o chamado “Esquadrão”, em rota de colisão direta com a líder na Câmara, a veterana Nancy Pelosi, especialmente em temas como imigração, meio ambiente e até o impeachment do presidente.
Aos 29 anos, Ocasio-Cortez é a congressista mais jovem do Capitólio. Meio século a separam de Pelosi, mas as divergências entre ambas não são apenas geracionais. Uma representa a ala radical dos democratas; a outra, o establishment.
O quarteto votou contra o partido no pacote de US$ 4,6 bilhões de ajuda humanitária ao caos que se instalou na fronteira sul americana, instigando a fúria de Pelosi. Numa entrevista ao “New York Times”, ela sugeriu que a força do grupo era ilusória, alimentada pelas redes sociais. Ocasio-Cortez devolveu com insinuações de que grupo era vítima de racismo, das quais depois se disse arrependida.
É nesse ponto da pugna até então limitada à seara democrata, que o trator Trump intervém, aparentemente sob o pretexto de defender Pelosi, mas mirando a base eleitoral republicana: “É tão interessante ver mulheres congressistas democratas ‘progressistas’, que vieram originalmente de países cujos governos são uma catástrofe total e completa, os piores, mais corruptos e ineptos em qualquer lugar do mundo, dizendo ao povo dos Estados Unidos, a maior e mais poderosa nação da Terra, como nosso governo deve ser administrado”.
A líder democrata não mordeu a isca; ao contrário, denunciou os tuítes do presidente como comentários racistas, com o objetivo de dividir a nação:
“Quando Trump diz a quatro congressistas que voltem a seus países, ele reafirma que seu plano de ‘Faça a América Grande Novamente’ sempre foi tornar a América branca novamente”, tuitou.
A frente democrata agora unificada procurou dissipar as tensões da semana anterior, focando em seu adversário real: o presidente Trump. Como resumiu o colunista Paul Waldman na revista online “The American Prospect”, a campanha de 2020 será muito parecida com a de 2016, independentemente de quem os democratas indiquem para se opor a Trump.
O presidente continua a agir como o guardião da hegemonia branca num país multirracial e multicultural. Quanto mais se dispersarem em brigas ideológicas, mais os democratas serão cabos eleitorais republicanos e ajudarão a reeleger o presidente.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

For security, use of Google's reCAPTCHA service is required which is subject to the Google Privacy Policy and Terms of Use.

I agree to these terms.