Trump e Johnson, harmonia à espera da primeira faísca




Presidente americano e premiê britânico agora, além do temperamento explosivo, compartilham promessas de aliança. Mas nem sempre foi assim. Donald Trump cumprimenta o então chanceler britânico Boris Johnson na ONU, em Nova York, em 2017
Kevin Lamarque/Reuters
Agora é só amor entre dois líderes que guardam semelhanças pelo penteado, pela verborragia, pelo politicamente incorreto e pelos escândalos de adultério. Num autoelogio, o presidente americano chama Boris Johnson de Trump britânico. Ambos reforçam o desejo de trabalhar em dupla, de dar novo fôlego ao relacionamento especial entre os dois países, que vem passando por momentos de afastamento e tensão.
O problema é prever até quando dura esta lua-de-mel entre os dois líderes que têm como marca principal o temperamento explosivo e histriônico. Durante a campanha pela liderança do Partido Conservador, que o consagrou premiê britânico, Johnson devolveu o respaldo que recebeu de Trump, como potencial primeiro-ministro, e foi criticado por compatriotas pela subserviência ao presidente americano.
Ele eximiu-se, por exemplo, de defender o embaixador em Washington, Kim Darroch, que num telegrama confidencial chamara Trump de inepto e incompetente. Sem apoio de seu futuro chefe e do presidente americano, o diplomata não teve outra alternativa a não ser demitir-se.
Johnson recusou-se a classificar de racistas os tuítes de Trump, que mandou quatro congressistas democratas e americanas voltarem para seus países. Disse apenas que não entendia a linguagem do presidente americano.
Nem sempre os dois exibiram arroubos de cumplicidade. Em 2015, antes de mergulhar na campanha presidencial, o magnata Trump descreveu algumas áreas de Londres, que tinha Johnson como prefeito, como perigosas e sujeitas à radicalização de muçulmanos.
“A única razão de não visitar algumas partes de Nova York é o risco real de conhecer Donald Trump”, devolveu o prefeito. Mais tarde, em Nova York, quando revelava preocupação com o fato de Trump tornar-se presidente, acabou sendo confundido com ele por uma menina: “Foi um dos piores momentos.”
Donald Trump e Boris Johnson aparecem se beijando em mural na cidade de Bristol sobre referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, em 2016
Ben Birchall / PA via AP
Quanto mais Trump se distanciava de Theresa May em suas divergências sobre a Otan, o Irã e a condução da saída do Reino Unido da União Europeia, mais o presidente americano se inclinava para Boris Johnson e pelo representante da extrema-direita, Nigel Farage.
No mundo ideal de Trump, Johnson e Farage fariam uma dobradinha para acelerar o Brexit e, etapa seguinte, firmar um pacto comercial com os EUA. No mundo real britânico, esta aliança parece distante e é descartada, ao menos verbalmente, pelos líderes dos partidos Conservador e Brexit.
Quanto a Trump e Johnson, esta simbiose explosiva por enquanto corre em harmonia, ambos compartilhando uma visão heterodoxa da política e frequentemente disruptiva. Até que um deles precise acender a primeira fagulha.

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