Bolsonaro e a economia




Avanço da Previdência alimenta a esperança de quem releva os absurdos do governo em nome da agenda econômica. Mas onde estão o emprego, o investimento, o crescimento? Deputados reunidos no plenário da Câmara durante a votação da reforma da Previdência em segundo turno
Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
O rumo da economia decidirá o futuro político de Jair Bolsonaro. Todos os que apostam na agenda liberal do ministro Paulo Guedes relevam os absurdos as declarações inaceitáveis do presidente, as suspeitas de corrupção que pesam sobre um filho, o nepotismo com outro, a retórica agressiva do terceiro – tudo em nome das reformas.
Só alguém com a personalidade abrasiva de Bolsonaro, argumentam, poderia enfrentar os interesses estabelecidos para implementá-las. O presidente desbocado é visto como uma espécie de “mal necessário” no caminho que o Brasil precisa trilhar para destravar o crescimento econômico, emperrado pelos 13 anos de desgoverno petista.
A aprovação da reforma da Previdência na Câmara reforçou a confiança de quem pensa assim. O clima de otimismo toma conta de setores do mercado. Vêm aí, proclamam, a tributária, a MP da liberdade econômica, as privatizações. Quem se antecipar às transformações sairá ganhando no momento em que a economia deslanchar.
E, no entanto, a economia mal reage.
Dois indicadores bastam para perceber a dimensão do nosso problema, para além da necessidade de equilíbrio nas contas públicas. Primeiro, o emprego. Embora tenham sido criadas mais de 400 mil vagas formais desde o início do ano, a população desocupada permanece acima de 12% da força de trabalho.
Crescem nas metrópoles brasileiras os indigentes, as ocupações temporárias, tanto as modernas, comuns numa economia “uberizada”, quanto o subemprego clássico. Qualquer tentativa de modernizar o trabalho e aumentar a produtividade, de acabar com atividades como cobradores de ônibus, porteiros, ascensoristas, frentistas, empacotadores ou flanelinhas, provocaria um choque social cruel.
O segundo indicador é o investimento, em queda desde os tempos do delírio desenvolvimentista no governo Dilma Rousseff. Investimos em torno de 15% do que produzimos, uns dez pontos percentuais aquém do necessário. Só a recuperação da infraestrutura exigiria investimentos superiores a 4% do PIB durante ao menos duas décadas.
O juro real nunca foi tão baixo no país. É hoje inferior a 2%, um incentivo evidente para o capital se deslocar para o setor produtivo. Se é assim, por que continuamos investindo tão pouco? Por que ninguém põe a mão no bolso para abrir empresas? Por que o capital de longo prazo não aproveita a oportunidade?
Simples: porque ninguém sabe o que acontecerá. Como ter confiança num país cujo presidente despreza cientistas e historiadores, critica dados oficiais, parece pensar apenas em agradar corporações de policiais, militares, caminhoneiros ou uma plateia de lunáticos?
Como calcular, na hora de planejar investimentos, quanto pagar de impostos ou qual será a contribuição previdenciária? Que tipo de segurança jurídica existe para garantir o capital, se um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) pode, numa penada, suspender privatizações ou mudar regras de remuneração?
Nada, nada, nada disso está resolvido com a aprovação da Previdência. Nem parece haver um horizonte realista em que esteja. As melhoras graduais podem até dar alguma esperança, mas mal encostam nas questões estruturais mais profundas, que exigem um tipo de liderança capaz de mobilizar todos os brasileiros, não apenas a franja que parece acreditar que tudo se resolve a bala.
O desafio de Bolsonaro não é trivial. Não está a seu alcance controlar os humores planetários, ainda mais decisivos para o futuro do Brasil. Que pode ele fazer a respeito da guerra comercial e cambial entre Estados Unidos e China? Do efeito do risco nuclear no Irã sobre os mercados de petróleo? Das exigências europeias nos campos trabalhista e ambiental para assinar o acordo fechado com o Mercosul?
Nada. Nada vezes nada. Nada elevado a nada. Não importa quantos tiros de mentira dê com o indicador…
Se conseguir inspirar os investidores e retomar o crescimento econômico, será forte candidato à reeleição. Caso contrário, as mesmas forças que o levaram ao poder tratarão de buscar outro candidato, seja o ministro Sergio Moro, o governador João Doria ou até o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia.

Arte/G1

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

For security, use of Google's reCAPTCHA service is required which is subject to the Google Privacy Policy and Terms of Use.

I agree to these terms.