A manobra autoritária de Boris Johnson




Com prorrogação de recesso parlamentar, premiê britânico limita debate, força o Brexit sem acordo e, possivelmente, novas eleições. O premiê britânico Boris Johnson, em foto desta segunda-feira (24)
Reuters/Dylan Martinez
Se durante o governo de Theresa May os deputados britânicos tiveram tempo demais para debater a saída do Reino Unido da União Europeia, no de Boris Johnson o prazo para negociações praticamente se esgotou por obra e graça de uma artimanha do premiê. Com a prorrogação do recesso parlamentar, ele limita as discussões para uma alternativa ao divórcio litigioso.
A perspectiva do Brexit sem acordo, no dia 31 do outubro, ficou mais concreta. Com a manobra já autorizada pela rainha Elizabeth II, o Parlamento terá apenas 16 dias para impedir uma retirada sem acordo.
Ao longo deste ano, a Casa dos Comuns rejeitou três vezes o pacto de 600 páginas alcançado por May e a UE. Mas, por outro lado, a maioria se opõe a deixar o bloco europeu sem um acordo, basicamente por temor às suas consequências mais drásticas: escassez de alimentos e combustíveis e o retorno de uma fronteira física entre Irlanda e Irlanda do Norte.
Em tempos conturbados como este, em vez de convocar o Parlamento de seu recesso de verão, o premiê fez justamente o oposto. Adiou a volta dos parlamentares, restringindo o debate.
Em poucas horas, uma petição angariou mais de 150 mil assinaturas contra a suspensão das sessões.
Boris Johnson foi denunciado por opositores trabalhistas como articulador de um golpe e chamado de ditador pela premiê da Escócia, Nicola Sturgeon.
“Este dia vai entrar para a História como o dia em que a democracia do Reino Unido morreu”, afirmou à BBC.
Correligionários conservadores, que agora integram a ala rebelde do partido, tampouco demonstram apoio à manobra do premiê. O presidente do Parlamento, John Berkow — cujos gritos por ordem são marcantes nas tumultuadas sessões em que se transformaram o debate sobre o divórcio com a UE — qualificou a ação de Johnson como ultrajante:
“Seu propósito é impedir que o Parlamento debata sobre o Brexit e cumpra com suas obrigações.”
Especula-se que o premiê tente, com sua manobra, forçar novas eleições e, com isso, obter uma maioria mais sólida para governar, o que ele tem negado com a habitual veemência. Com May, esta estratégia fracassou: ao antecipar eleições, ela voltou ao poder com uma maioria reduzida no Parlamento e foi forçada a se aliar com unionistas da Irlanda do Norte. Deu no que deu.
A perspectiva de eleições é viável, caso os parlamentares consigam aprovar uma moção de confiança e derrubar Johnson no curto período de trabalho que lhes resta, entre 3 e 10 de setembro. Um novo pleito seria realizado em outubro. Embora divididos, os conservadores estão à frente dos trabalhistas, também divididos.
Mas e o Brexit nisso tudo? Se depender do premiê britânico e da União Europeia, não restam dúvidas: será realizado de qualquer maneira no Dia das Bruxas.

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