Por que protestos continuam em Chile, Líbano e Hong Kong, apesar de reivindicações iniciais terem sido atendidas?




Nos três casos, governos demonstraram lentidão para entender os sinais de insatisfação. O Exército patrulhou as ruas de Santiago no sábado com tanques militares
Getty Images
Chilenos e libaneses invadiram as ruas de seus países para protestar contra o aumento da tarifa do metrô e a cobrança de uma taxa sobre as mensagens do Whatsapp. Os dois governos recuaram, mas não conseguiram pôr fim à insatisfação. Situação semelhante ocorre em Hong Kong, onde há quatro meses, manifestantes testam os limites do governo chinês, apesar de a sua demanda inicial — a suspensão de um projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos para a China — ter sido atendida.
Embora distintas, as circunstâncias dos três movimentos confluem sempre num estopim. A sua perpetuação, em cenas de caos e violência, é o indício de que o descontentamento é bem mais profundo do que os motivos que deflagraram os protestos.
Em Hong Kong, as reivindicações dos manifestantes evoluíram da revogação da lei para a demanda de mais autonomia em relação à China e, até mesmo, para a renúncia de Carrie Lam, a principal executiva do território.
Ficou claro que a violência explodiu no Chile não apenas pelo aumento de 30 pesos na tarifa do metrô. O governo logo voltou atrás e suspendeu o reajuste, após decretar, pela primeira vez, desde a democratização do país, em 1990, o estado de emergência no país. O toque de recolher entrou em vigor, primeiro das 22h às 7h. Depois, seu início foi antecipado para as 18h.
Nada disso arrefeceu os ânimos. Ao contrário, a onda de protestos degenerou em 11 mortos, mais de 1.400 detidos, destruição, saques e prejuízos que já somam US$ 300 milhões. Há quatro dias, o cheiro de gás pimenta exala pelas ruas de Santiago e Valparaíso, tomadas por manifestantes e militares.
A insatisfação dos chilenos se traduz também em salários baixos, tarifas de serviços elevados, melhorias no sistema público de saúde e de previdência. O custo de vida é alto para a renda mensal de US$ 700, a média assegurada por 70% da população.
A imagem do oásis de estabilidade que o presidente Sebastián Piñera usava até recentemente para definir o país passou rapidamente ao passado. Foi substituída pelo que o presidente chamou de estado de guerra. Os manifestantes expressaram seu desagrado a problemas estruturais como a desigualdade social, que põe o Chile na lanterna entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O Líbano, por sua vez, tem a sua economia praticamente arruinada, com uma dívida pública de US$ 86 bilhões, que representa 150% do PIB. O desemprego afeta 25% da população.
A cobrança de uma taxa sobre as mensagens instantâneas desencadeou uma explosão de fúria, ameaçando pela primeira vez o sistema político sectário que governa o país desde o fim da guerra civil, em 1990. Mais de um milhão de pessoas, que equivalem a um sexto da população, inundaram as ruas.
Imagem de manifestação em Beirute, no Líbano, no dia 18 de outubro de 2019
Mohamed Azakir/Reuters
O premiê Saad al-Hariri anunciou nesta segunda-feira um pacote de reformas para acalmar os manifestantes. As medidas preveem a redução pela metade dos salários de deputados, fusão de ministérios e instituições públicas e aumento de impostos sobre os lucros de bancos.
Mas, assim como no Chile e em Hong Kong, os manifestantes libaneses elevaram suas exigências: agora querem a renúncia do governo e também uma revisão do sistema político do país. Nos três casos, enquanto o caldeirão de insatisfações fervia, os governos demoraram para entender os sinais de desconexão com as realidades de suas populações.
Manifestantes fazem novo ato em Hong Kong neste domingo (20)
Reuters/Kim Kyung-Hoon

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