Crianças tomam mais álcool do que leite em São Tomé e Príncipe, diz pesquisadora




Estudo do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Lisboa (FMUL) sobre o consumo de álcool e drogas pelos jovens do país mostra que pobreza, fome e falta de informação levam população a substituir comida por álcool. Pobreza e fome em São Tomé levam crianças a substituir comida por álcool
Ruth McDowall / AFP
A pesquisadora Isabel de Santiago, do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Lisboa (FMUL), realizou um amplo estudo sobre o consumo de álcool e drogas pelos jovens do país. As conclusões serão publicadas em junho de 2020, na revista Acta Médica Portuguesa.
A especialista em saúde pública entrevistou mais de 16 mil alunos do ensino público e o estudo se baseou em uma mostra de 12%. A conclusão é que cerca de 58% dos meninos e 43% das meninas em idade escolar consomem álcool.
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“Como viajo muito para o país, um dia decidi percorrer todas as comunidades para tirar fotos e investigar essa informação, de que os jovens de São Tomé e Príncipe bebiam muito”, contou ao repórter Marco Martins, da redação portuguesa da RFI.
As imagens se transformaram em uma exposição em Portugal, com renda revertida para a Casa dos Pequeninos, instituição que atende menores vítimas de alcoolismo em São Tomé e Princípe. “Muitas mães bebem durante a gravidez e as crianças nascem com síndrome de abstinência”, revela.
“Isso pode gerar graves problemas de saúde no futuro, como a cirrose hepática precoce”, diz. Essa triste realidade levou a portuguesa, em julho de 2003, a buscar mais informações sobre o tema e a ouvir diretamente os jovens.
“Os resultados foram alarmantes”, diz a pesquisadora, que analisou o conteúdo dos questionários 2003 a 2014. Eles foram publicados em uma conferência mundial que aconteceu na cidade de Curitiba (PR) e no CDC (“Centers for Disease Control and Prevention”), em Atlanta, nos EUA.
Álcool para matar lombriga
Uma das constatações de Isabel Santiago é a inexistência de uma política de comunicação e educação em saúde, de estudos sobre o consumo de álcool e drogas pelos jovens e uma pobreza extrema. Além disso, ressalta, o acesso às bebidas alcoólicas gera indiretamente um aumento do número de casos de abusos sexuais.
“Com essas informações busquei determinar a frequência do uso do álcool na população escolar e identificar a principal característica associada ao consumo deste tipo de bebida e discutir medidas de prevenção”, lembra a pesquisadora, que destaca o fato de que as bebidas consumidas na maior parte dos casos não passaram por nenhum tipo de controle industrial ou sanitário.
“Para nós capacitarmos as crianças, temos que ser divertidos no momento de passar a informação”, diz. “As pessoas não têm informação sobre os efeitos do álcool.
“Os homens pensam que é uma questão de virilidade e as mães, por ignorância, dão bebida às crianças de seis ou sete anos em jejum para matar as lombrigas”, conta a pesquisadora. “Além disso há a pobreza. As pessoas não têm dinheiro para comprar comida e preferem se alimentar de álcool, que é mais barato”, exemplifica.
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Soluções
Para a pesquisadora, uma das soluções para amenizar o problema é oferecer, por exemplo, atividades esportivas para as crianças, além, claro de criar hábitos de vida saudáveis e informar sobre os efeitos nocivos do álcool. Além, obviamente, de buscar soluções para fome.
Para isso, da ajuda da comunidade internacional é fundamental para intervir junto às comunidades. Esse trabalho deve ser feito, ressalta, com os líderes comunitários.
É importante também, ressalta, garantir a nutrição das crianças produzindo leite localmente, já que importar o produto é muito caro. A segunda medida é o controle e prevenção, diz. “Só consome álcool importado quem tem dinheiro.
Os pobres bebem os outros álcools, que não são controlados em termos de saúde pública pelas outras autoridades e não podem ser vendidos de maneira livre”, lembra.

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