Especialistas esperam ‘forte reação’ do Irã após ataque dos EUA que resultou na morte de general iraniano




Comentaristas dizem que a crise poderá ter desfecho sem precedentes na região; Irã deve responder ao ataque e conflitos na região devem escalar rapidamente. Ataque aéreo dos EUA em Bagdá mata chefe da Guarda Revolucionária Iraniana
Especialistas em relações internacionais preveem forte reação do Irã, após a morte de Qassem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária iraniana e um dos homens mais poderosos do país, e também de Abu Mahdi al-Muhandis, chefe das Forças de Mobilização Popular do Iraque, milícia apoiada pelos iranianos, e mais 5 pessoas em um ataque aéreo dos Estados Unidos nesta quinta-feira (2) em Bagdá.
O aumento no nível de tensão entre os Estados Unidos e Irã será “sem precedentes”, para os especialistas em Oriente Médio. Eles dizem que é possível esperar uma escalada no nacionalismo iraniano e retaliação “no mesmo nível” às forças norte-americanas.
Veja abaixo as análises dos especialistas em Oriente Médio
Arlene Clemesha, professora de História Árabe da USP: ataque fortalece regime autoritário
Paulo Velasco, professor de politica internacional da UERJ: conservadores ganham força
Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM: Irã não vai ficar sem reagir
Tanguy Baghdadi, professor de relações internacionais do Ibmec: ataque é “catastrófico”
Sallem Nasser, doutor em relações internacionais pela UFRJ: não há estratégia clara dos EUA
Guga Chacra, comentarista da GloboNews: “impacto maior que a morte do Bin Laden”
‘Linha dura’
Entenda o papel da Guarda Revolucionária do Irã no Oriente Médio
A professora de História Árabe da Universidade de São Paulo (USP), Arlene Clemesha, disse que a intervenção internacional dificulta a situação de estabilidade da região e pode fortalecer uma “linha dura” do regime iraniano (veja no vídeo acima).
“O assassinato de Soleimani não obstante silencia para sempre uma figura como ele, mas fortalece uma linha dura no Irã e fortalece quem tem interesse no regime mais autoritário”, disse Clemesha em entrevista a GloboNews.
Segundo a especialista, a figura do general iraniano foi importante na região não só na expansão da influência e poder iraniano, mas também na repressão de revoltas populares. Para ela, a estratégia militar de Soleimani se encerra com a morte, mas não implica em um recuo imediato do Irã.
Ela acredita que pode haver um contra-ataque protagonizado por uma “das várias milícias” e disse que podem não se concentrar apenas no Oriente Médio região que, segundo ela, vive uma escalada nas tensões e que vive uma guerra não declarada desde 2003.
Paulo Velasco, professor de politica internacional da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), disse que o ataque abre espaço para os conservadores iranianos e isso poderá dificultar futuras negociações com a Europa e EUA.
“É uma situação doméstica delicada para o governo do Irãn”, disse o pesquisador.”O que percebemos, a partir deste atentado, é que a ala conservadora tende a ganhar força, e isso certamente vai impactar as eleições de fevereiro.”
Para ele, o governo de Teerã vai apresentar uma reação em resposta ao ataque norte-americano, entretanto, ele disse acreditar que será mais cuidadosa e estratégica.
‘Alvo de oportunidade’
Líder do Irã anuncia substituto de chefe da Guarda Revolucionária, morto pelos EUA
Para o professor de relações internacionais da ESPM, Gunther Rudzit, o ataque “foi um alvo de oportunidade”. Segundo o especialista, esta é uma amostra de como uma guerra entre EUA e Irã vem se arrastando durante a última década (veja no vídeo acima).
“O que vai acontecer de agora em diante é um tanto quanto difícil de prever”, disse Rudzit. “A reação iraniana vai vir, eles não vão poder deixar sem reação, mas o que ou quem eles vão atacar no Oriente Médio é difícil de dizer.”
O professor de relações internacionais apontou alguns possíveis desfechos para os acontecimentos. Para ele, pode ser um alvo com tropas americanas ou israelenses. Entretanto, ele disse acreditar que o Irã pode tentar atingir um alto oficial americano, “para ficar num patamar igual que o da ação norte-americana”.
Rudzit disse ainda que há interesse do Irã em ampliar o conflito e retomar o discurso de que os EUA são ‘o grande satã’. Isso porque, explicou, o regime iraniano passa por um momento de contestações. Já para o presidente dos EUA, o professor apontou que há interesse político de Donald Trump neste conflito, já que o mandatário passa por um processo de impeachment.
‘Ataque catastrófico’
Professor de RI do Ibmec comenta impacto do ataque aéreo em Bagdá
O professor de relações internacionais Tanguy Baghdadi, do Ibmec, afirma que o ataque é “catastrófico” e prevê uma forte reação do Irã (veja no vídeo acima).
“Para a estabilidade regional a gente não poderia imaginar um cenário mais tenso”, disse o especialista. “O Iraque é um país muito fundamental. Não é por acaso que a gente teve guerra na década de 90. Sempre foi um espaço de disputa entre o Irã e, nas últimas décadas, os EUA.”
Segundo Baghdadi, o Iraque tem uma posição curiosa porque é um país muito influenciado pelos rivais. “A gente está falando de um país que é fundamental para a região. Mas há nos últimos anos uma clara influência do Irã, que não é bem vista pela população iraquiana, que acredita numa influência excessiva, grande demais, intervencionista. Isso não é de hoje, vem de uma década.
Na previsão do especialista, a crise poderá ter desfecho sem precedentes. “Quando a gente tem um acontecimento como esse a tendência é que tenha um aumento sem precedentes no nível de tensão”, analisou Baghdadi.
Por outro lado, Sallem Nasser, doutor em relações internacionais pela UFRJ, disse os EUA parecem não ter uma estratégia muito clara que justifique este ataque. Para ele, os norte-americanos já sinalizavam a intenção de se afastar dos conflitos do Oriente Médio (veja o vídeo abaixo).
Morte de general iraniano marca escalada de tensão entre EUA e Irã
“Essa é justamente uma fragilidade dos EUA na região, que está preparada para uma guerra de atrito lento e permanente, uma guerra de guerrilha”, disse Nasser. “Isso custará muito caro aos americanos em termos de estratégia e custos.”
Graves consequências
Guga Chacra comenta morte de Chefe da Guarda Revolucionária Iraniana
O comentarista da GloboNews, Guga Chacra, disse que as consequências serão gravíssimas no Oriente Médio (veja no vídeo acima).
“O peso geopolítico da morte dele é de impacto muito maior que a morte do Bin Laden”, disse Chacra. “Ele é um herói nacional no Irã, talvez o maior desde a guerra do Irã e Iraque.”
Para ele, o Irã vai reagir e há risco de conflito. Chacra também destacou que é possível haver um aumento na instabilidade da região. “É um momento de extrema tensão, muito maior do que temos observado entre EUA e Irã nas últimas décadas.”
Segundo o comentarista, uma resposta iraniana seria feita no Iraque onde há forças revolucionárias, milícias e bases norte-americanas. “Os iranianos não agem impulsivamente, eles vão calcular bem a resposta contra este ataque.”
Local onde general iraniano foi morto em Bagdá, no Iraque
Roberta Jaworski/G1
Initial plugin text

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui