Morte de Soleimani dá fôlego a regime dos aiatolás




Sob pressão de economia deteriorada, Irã tira proveito de assassinato de general para curar divisões internas e aglutinar população em torno do inimigo maior, o governo americano. Multidão acompanha cortejo com o corpo do general Qassem Soleimani, em Teerã, no Irã, nesta segunda-feira (6)
Atta Kenare / AFP
O funeral mais concorrido no Irã desde a morte do fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhollah Khomeini, há 30 anos, é também um indicativo de como o regime iraniano pode tirar proveito do assassinato de seu mais proeminente comandante militar para curar as divisões internas.
A comoção concentrada nas homenagens ao chefe da força de elite da Guarda Revolucionária, Qassem Soleimani, arrancou lágrimas do líder supremo, Ali Khamenei, e imprimiu também um tom nacionalista à morte, aglutinando apoio popular em torno do inimigo maior — o governo americano.
A morte do general parece ter ofuscado completamente a onda de protestos contra o aumento de 50% da gasolina subsidiada, em novembro passado, duramente reprimida pela Guarda Revolucionária. Segundo a Anistia Internacional, as manifestações deixaram 300 mortos e foram silenciadas com um apagão digital.
O custo do desaparecimento do mentor da expansão iraniana no cenário regional reverte-se também em benefícios ao regime. Ainda que as ameaças de vingança pelo assassinato de Soleimani estejam até o momento limitadas à retórica anti-americana, em dois dias o Irã foi bem-sucedido em alcançar dois de seus objetivos.
Um deles é a aprovação da retirada das 5 mil tropas americanas pelo Parlamento iraquiano. Embora a decisão não seja vinculante e tenha sido determinada apenas pela bancada xiita, fica evidente a vantagem para o regime dos aiatolás, que disputa com os EUA a influência no país vizinho.
O outro é o abandono dos compromissos firmados pelo acordo nuclear assinado em 2015 com seis potências. Embora pressionado por duras sanções do governo americano, o Irã agora se reserva o direito de eliminar as restrições para o enriquecimento de urânio.
A decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de ordenar o lançamento de um drone sobre o comboio em que estava o general Soleimani, nas imediações do aeroporto de Bagdá, acabou por dar novo fôlego à liderança iraniana. A ameaça à soberania nacional reavivou sentimentos ufanistas e ajuda a maquiar a economia deteriorada. Esta estratégia costuma ter efeito temporário.
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