Qual é a estratégia de Trump ao matar Soleimani? Especialistas americanos respondem




Pessoas próximas à política externa dos EUA explicam o que acham que está por trás do ataque da semana passada e suas possíveis repercussões na política externa. Trump ao lado do líder republicano no Senado, Mitch McConnell, nesta segunda-feira (6); ele prometeu reagir caso o Irã ataque alvos americanos
Reuters/Brendan McDermid
A decisão do presidente americano, Donald Trump, de autorizar o ataque de drone que resultou na morte do general iraniano Qassem Soleimani, na quinta-feira (02), elevou as tensões entre EUA e Irã ao longo da última semana, com trocas de ameaças e outras declarações hostis de parte a parte.
Qual é a estratégia de Trump no longo prazo, e o que pode acontecer agora?
Uma das principais promessas de Trump na Presidência foi a de retirar as tropas americanas das “guerras intermináveis” no Oriente Médio.
Agora, essa promessa é colocada em xeque, enquanto o Irã promete “vingança severa” pela morte do segundo homem mais poderoso do país e o próprio Trump promete retaliar contra 52 possíveis alvos “importantes para o Irã e a cultura iraniana”.
“Os EUA acabaram de gastar dois trilhões de dólares em equipamento militar. Somos os maiores e de longe os melhores do mundo”, tuitou o presidente americano no domingo (05). “Se o Irã atacar uma base americana, ou qualquer americano, vamos mandar alguns desses belos novos equipamentos na direção deles… sem hesitar.”
A seguir, três pessoas próximas à política externa americana explicam à BBC o que acham que motivou a decisão de Trump de matar Soleimani e quais as implicações disso para as relações iraniano-americanas no futuro próximo.
‘Trump não é um grande estrategista’
PJ Crowley, ex-secretário assistente de Estado sob o governo Barack Obama e autor do livro “Red Line: American Foreign Policy in a Time of Fractured Politics and Failing States” (em tradução livre, “Linha Vermelha: Política Externa Americana em Tempos de Política Fraturada e Estados Falidos”)
Por que agora?
Integrantes de milícia iraquiana caminham sobre foto de Trump em Bagdá nesta segunda-feira; decisão de matar Soleimani coloca em xeque promessa de sair do Oriente Médio
Ahmad Al-Rubaye/AFP
Houve ataques pela milícia apoiada pelo Irã (ele se refere a ações, ao longo dos dois últimos meses, contra bases iraquianas que abrigavam tropas americanas no Iraque, além do ataque à embaixada americana no Iraque, no final de 2019) e as respostas contra instalações dessa milícia no Iraque e na Síria.
O governo Trump ficou surpreso com a magnitude do ataque contra a Embaixada em Bagdá, visto como uma escalada, e acreditou que Soleimani estava por trás disso. Apresentado com uma oportunidade de alvo, o presidente autorizou o ataque (contra o general).
Qual é a estratégia de Trump?
Donald Trump não é um grande estrategista. Ele vive no momento e age por instinto. Eu ficaria surpreso se ele tivesse pensado (no momento do ataque) sobre os desdobramentos.
Ele foi apresentado à oportunidade de eliminar um “homem mau”, que Obama não teve. Provavelmente foi tudo o que ele precisou escutar.
O que acontece agora?
O Irã prometeu responder, e há muitos grupos próximos ao país que vão procurar oportunidades de atingir alvos pela região. Eles entendem o suficiente sobre política americana para saber que a chave para a reeleição de Trump é a economia. Se eles conseguirem abalá-la, o farão.
Na teoria, o objetivo final de Trump é forçar o Irã a voltar à mesa de negociações para obter um “acordo melhor”, que leve em conta não apenas as ambições nucleares iranianas, mas seu programa de mísseis e seu comportamento regional também (o Irã é conhecido por patrocinar milícias e grupos xiitas no Oriente Médio e por ter ajudado a defender o regime de Bashar al-Assad na Síria).
É implausível ver como isto (o assassinato de Soleimani) nos aproxima dessas negociações. O secretário de Estado (Mike) Pompeo está sonhando quando diz que nós (EUA) seremos amplamente aplaudidos na região. Seremos em Jerusalém e Riad (pelos governos israelense e saudita, adversários do Irã), mas o restante da região está apreensivo.
E a promessa de Trump de sair do Oriente Médio?
O presidente nunca resolveu a contradição inerente de sua política para o Irã. Ele quer exercer o máximo de pressão, enquanto tenta retirar os EUA da região.
Embora o presidente tenha consistentemente criticado as guerras do Oriente Médio, ele agiu (com a morte de Soleimani) de modo que, ao menos no curto prazo, aumenta o risco de que o atual conflito político-econômico entre Irã e EUA escale para uma guerra.
‘Se o Irã atacar uma base americana, ou qualquer americano, vamos mandar alguns desses belos novos equipamentos na direção deles… sem hesitar’, afirmou Trump via Twitter
Jim Watson/AFP
‘Política de castigo e recompensa’
William Tobey é senior fellow no Centro Belfer para Ciências e Assuntos Internacionais da Harvard Kennedy School, além de ex-vice-administrador de não proliferação nuclear da Agência de Segurança Nuclear dos EUA
Por que agora?
O “timing” provavelmente reflete o fato de que a campanha de pressão máxima tem sido surpreendentemente eficiente.
Teerã escolheu escalar (a rivalidade com os EUA) da dimensão econômica para a militar, primeiro com ataques contra navios petroleiros e instalações e, mais tarde, contra terceirizados (em referência à morte de um civil americano no Iraque, em ataque atribuído a milícias apoiadas pelo Irã, em dezembro).
É possível ver isso (a morte de Soleimani) como uma tentativa de interromper essa escalada, de dizer a Teerã que isso não vai funcionar.
Qual é a estratégia de Trump?
Ele está tentando uma política complexa: tentar aplicar pressão o suficiente para que o Irã sinta que literalmente não tem escolha senão voltar à mesa de negociação e obter um acordo melhor. Ao mesmo tempo, a pressão não pode ser grande demais ao ponto de levar o Irã a desistir totalmente de negociar.
De certo modo, há (uma estratégia de) castigo — o ataque ao comboio de Soleimani — mas uma recompensa, com o presidente (Trump) dizendo: “Não quero ir para a guerra com o Irã”.
Ele está tentando manter no ar a ideia de que não vê o conflito aberto como um caminho construtivo.
Houve protestos por Soleimani também fora no Irã, por exemplo no Iraque e no Paquistão (acima)
Arif Ali/AFP
O que acontece agora?
O Irã tem sofrido com a alta inflação e a desvalorização da sua moeda. Tendo lutado uma batalha perdida no front de sanções econômicas, o país decidiu abrir uma nova frente: de ataques militares. Acredito que países que sintam que estão sendo lesados ou atacados se vejam mais propensos a assumir riscos.
Com certeza estamos vendo uma alta tolerância a riscos pelo governo de Teerã. E suspeito que sua vontade de assumir mais riscos vai aumentar.
Então, a questão é: o que vai acabar primeiro, a campanha de pressão máxima ou a capacidade de Teerã para resistir?
‘Trump foi encurralado’
Luke Coffey é diretor do Centro Allison de Política Internacional da Fundação Heritage, centro de estudos de orientação conservadora em Washington, e também um veterano do Exército americano e ex-conselheiro especial do Ministério da Defesa britânico.
Por que agora?
Acho que cada pessoa tem um limite. Quando olhamos tudo o que o Irã fez ao longo do último ano (…), me parece claro que o país estava tentando provocar algum tipo de resposta dos EUA.
Trump, por não ser muito intervencionista militarmente, estava tentando evitar essa situação. Suspeito que ele tenha sido apresentado a essa opção (de matar Soleimani) antes e tenha rejeitado, mas na última semana pode ter decidido que chegou ao seu limite.
Ele continua a dizer que quer um acordo negociado com o Irã, sem precondições para as conversas. Trump chegou a um ponto em que tinha de revidar.
Qual é a estratégia de Trump?
A campanha de pressão máxima é a estratégia — o governo tem sido muito consistente nisso.
Trump mostrou que está tentando levar os iranianos de volta à mesa de negociações, e acho que está tentando fazê-lo com o mínimo possível de ação militar.
Acho que Trump de fato vê a si mesmo como um grande negociador e queria ser a pessoa a fazer esse acordo, mas foi encurralado porque o Irã continuava a aumentar sua pressão.
Você não acorda um dia e simplesmente decide matar Qassem Soleimani. Foi preciso planejamento entre diferentes setores de governo e militares para monitorar seu paradeiro e identificar janelas de oportunidade.
Não podemos esquecer que Soleimani era um combatente dentro de uma zona de combate. Sem dúvida que, se os iranianos tivessem a oportunidade de eliminar alguém similar dos EUA, o fariam.
Isso é parte do ritmo do conflito em que estamos presos no Oriente Médio. Não acho que isso vai escalar até se tornar a Terceira Guerra Mundial.
O que acontece agora?
O Irã certamente não vai voltar à mesa de negociações agora.
Isso não era um motivo para não fazer o ataque — falando francamente, Soleimani teve o que mereceu. Ele tem o sangue de soldados americanos nas mãos e aterrorizou grande parte do Oriente Médio por mais de uma década. Só porque Trump quer negociar com o Irã não significa que ele não deveria eliminar Soleimani.
Não acho que ele agiu pensando em política; acho que ele queria evitar essa situação, ou teria feito isso (o ataque) antes. Mas, politicamente falando, isso faz ele parecer como um líder mais forte entre seus apoiadores.
E a promessa de Trump de sair do Oriente Médio?
Trump mal gosta de ter tropas americanas na Alemanha, então a ideia de que Trump enviará tropas para o Irã em um ano eleitoral é, para mim, inconcebível.
Mas ele também tem de mostrar que os EUA só aceitarão ser pressionados até determinado ponto.
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