Debate não muda quadro eleitoral




Falta ao Partido Democrata um candidato com o carisma necessário para enfrentar Trump O ex-vice presidente americano, Joe Bide, e seu adversário, Bernie Sanders, durante debate do partido democrata nesta terça-feira (14/1), em Des Moines, Iowa
REUTERS/Shannon Stapleton
A candidatura Donald Trump à Presidência, em 2015 e 2016, era diversão garantida. A superpopulação de pré-candidatos entre os republicanos era até maior que hoje entre os democratas. Mas Trump estava lá para distribuir apelidos, bravatas, frases de efeito e ataques abaixo da cintura. Difícil que não gerasse gargalhadas nos debates.
Ex-apresentador de O Aprendiz, dominava a televisão. Atraía uma audiência espontânea que não apenas lhe dava visibilidade, mas contribuiu decisivamente para a vitória. Sabia quem e quando atacar para provocar reações iradas. Vários tentaram imitá-lo ao longo da campanha. Impossível. Trump é único.
A conclusão mais gritante do debate de ontem entre os pré-candidatos democratas à Presidência pode parecer constrangedora: falta ao partido alguém como Trump. Onde os republicanos traziam diversão, os democratas trazem enfado. No lugar das gargalhadas, a reação inevitável é o bocejo. Ninguém parece ter o carisma que será essencial para encarar uma campanha contra Trump.
É sempre possível encarar tal situação pelo lado positivo. Os seis pré-candidatos que se reuniram em Des Moines, Iowa, para o último debate antes das prévias naquele estado (marcadas para 3 de fevereiro) se dedicaram não ao espetáculo, mas a debater as questões políticas que mobilizam o país de fato: política externa, Irã e Afeganistão, acordos comerciais, programa de saúde, educação, mudanças climáticas, o impeachment e capacidade de derrotar Trump nas urnas.
Com uma exceção, preferiram manter a civilidade a partir para ataques pessoais. Mesmo a exceção, só veio em resposta a uma provocação da moderadora Abby Phillip. Ela questionou o senador Bernie Sanders sobre uma declaração atribuída a ele pela senadora Elizabeth Warren que tem mobilizado a imprensa americana nos últimos dias.
Rompendo o pacto de não-agressão mantido pelos dois até agora, Warren afirmou que, num jantar privado em 2018, Sanders lhe disse não acreditar que uma mulher pudesse ganhar a eleição. Em resposta, Sanders negou, lembrou que Hillary Clinton derrotou Trump na votação popular e se comprometeu a apoiar qualquer um dos presentes que vencesse as primárias.
Warren reiterou ter ouvido a declaração de Sanders. Disse em seguida que, dos presentes, os quatro homens tinham sido derrotados em dez eleições e que apenas as duas mulheres – ela e a senadora Amy Klobuchar – nunca haviam perdido uma disputa. No final do debate, ela evitou apertar a mão estendida por Sanders. Os dois trocaram algumas palavras, depois saíram cada um para seu lado.
Desde o início da campanha, Warren foi a única que chegou a encostar no líder nas pesquisas, o ex-vice-presidente Joe Biden. Nos últimos meses, seu ímpeto arrefeceu. Ela caiu, enquanto Sanders não apenas recuperou a segunda posição, mas também a energia com que mobiliza o eleitorado mais jovem desde 2016.
Warren e Sanders têm discurso semelhante em questões como saúde ou a necessidade de enfrentar bancos e grandes corporações. Tentam atrair o mesmo tipo de eleitor, mais à esquerda no espectro político. Mas a posição de Sanders nas pesquisas é mais vantajosa nos dois primeiros estados a realizar prévias, Iowa e New Hampshire.
Iowa, em particular, oferece um quadro indefinido. Embora eleja apenas 41 dos 3.979 delegados que votarão no primeiro turno da convenção de Milwaukee, em julho, será crucial para definir o rosto da corrida nas semanas seguintes. Impossível dizer quem tem mais chance.
Quatro pré-candidatos – Sanders, Biden, Warren e Pete Buttigieg – pontuam na mesma faixa, entre 15% e 20% (Sanders está na frente). Pelas regras, quem cair abaixo de 15% é eliminado e não indica delegados. Warren e Buttigieg estão perigosamente perto desse patamar. Isso explica a cautela de todos no debate de ontem. Ataques aos adversários sempre podem repercutir negativamente no eleitorado.
Tanto Buttigieg quanto Klobuchar tentam se apresentar como alternativas moderadas mais viáveis que Biden. Mas ambos preferiram disparar suas críticas às regras de transição para o programa de saúde universal gratuito defendido por Warren. Como resultado, Biden saiu relativamente ileso da noite.
Mesmo liderando as pesquisas, foi o segundo a falar menos (Warren foi quem falou mais). O tempo de Biden só superou o do bilionário Tom Steyer, outsider que só se qualificou para o debate por ter despejado milhões em propaganda e subido nas pesquisas em Nevada e Carolina do Sul, que realizam prévias depois de Iowa e New Hampshire.
Se Biden vencer em Iowa, sua candidatura ganhará impulso. Ele terá conseguido segurar Sanders num estado favorável e, graças ao apoio da elite partidária, tenderá a repetir o desempenho de Hillary nas prévias de 2016. Se, ao contrário, Sanders sair vitorioso nos dois primeiros estados, será ele quem poderá ser catapultado à liderança e rapidamente roubará o favoritismo de Biden.
Graças a seus trejeitos característicos, à voz grave e ao sotaque sincopado do Brooklyn, Sanders é o único que ainda tem um carisma remotamente comparável ao de Trump. Com ele, a campanha poderá oferecer algum entretenimento. Do contrário, só bocejos mesmo.

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