“Em abril, lançamos a candidatura do Lula”, dispara Lindbergh

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POR ROBERTO DE MARTIN, jornalista, ator, mineiro de Matias Barbosa e pai da Eva.

O senador Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro, quer Lula já. “Eu defendi isso e praticamente não tem ninguém contra. Antecipar a candidatura do Lula para abril, até porque a gente não sabe se esse governo Temer acaba”, disse ao DCM.

“Temos muitos fatores imponderáveis. Uma delação do Eduardo Cunha, por exemplo. O povo não aceita eleições indiretas”.

Lidbergh criticou duramente a liberação da bancada petista para apoiar Eunício Oliveira, candidato de Temer, para presidente do Senado.

Para ele, alguns membros do partido não entendem o recado das ruas, tampouco o significado negativo da atitude, buscando uma conciliação com quem vem “rasgando a Constituição” desde a retirada de Dilma do poder. “Há uma parte do PT muito acomodada, burocratizada, que se adaptou a uma política de conciliação exagerada”, afirma.

A seguir, sua entrevista:

DCM: A ideia do PT é lançar já a candidatura de Lula?

Lindbergh Farias: Eu defendi isso e praticamente não tem ninguém contra. Antecipar a candidatura do Lula para abril, até porque a gente não sabe se esse governo Temer acaba. Temos muitos fatores imponderáveis. Uma delação do Eduardo Cunha, por exemplo.

E se o governo Temer cair e as eleições forem indiretas, com Rodrigo Maia e Eunício Oliveira comandando o Congresso?

Eles não vão conseguir fazer isso. O povo não aceita eleições indiretas.

No TSE, se Temer for afastado pela chapa, tem um debate que diz que a eleição seria direta, além de outras PECs que tramitam no Congresso. Claro que a ideia deles é levar o Temer até 2018, mas pode ser que não consigam, que o governo desmonte. Eu acho que eles vão ter muita dificuldade de colocar eleição indireta. Acho que não é “Lula 2018”, é “Lula agora”. Com um plano para tirar o Brasil da crise, apresentando propostas, enfim, fazendo esse lançamento em abril, maio, o mais rápido possível.

Por que o PSDB tem cada vez mais espaço no governo Temer?

Os amiguinhos do Temer são muito barra pesada. O Cunha está preso, Geddel saiu, Padilha está todo enrolado, Moreira Franco também, Jucá. O Temer, primeiro, está refém da mídia, da burguesia, e segundo do PSDB, porque em torno do PMDB não há figuras para tocar o barco.

Ele tenta ser aceito com essa aliança com o PSDB, mas eu diria a você o seguinte: se tem um partido que perdeu com esse impeachment, com o golpe, esse partido foi o PSDB, porque eles estavam com 35% dos votos em 2015, com o Aécio, agora têm menos de 10%, atrás do Bolsonaro.

Como vê um eventual crescimento do Bolsonaro?

Acho que temos que ter cuidado. Ele teria muitas dificuldades numa campanha porque fala bastante besteira, como por exemplo que o salário da mulher tem que ser menor etc, mas o crescimento dele a gente não pode subestimar, até porque tem uma base real, com um discurso autoritário, cada vez maior no País. A lógica da criminalização da política como um todo.

E o aumento do desemprego, aumento da crise, convulsão social – veja o que aconteceu no Espírito Santo, o que está acontecendo no Rio de Janeiro – isso tudo é um terreno fértil para o discurso da ordem, autoridade. Tem uma parte da sociedade brasileira que hoje, se pudesse, fechava o Congresso Nacional e iria por um caminho autoritário. A tendência é que tenha mais espaço para esse tipo de discurso em 2017.

Acho, inclusive, que o PSDB foi irresponsável porque foi àquelas passeatas de verde e amarelo e em nenhum momento demarcou campo contra aqueles que defendiam intervenção militar. E acabou que essa turma comeu a base social do próprio PSDB, porque o Bolsonaro cresceu em cima dos eleitores de Aécio, Alckmin etc.

E a indicação de Aloysio Nunes para o Ministério das Relações Exteriores?

A política externa do governo Temer é um desastre completo. Eles atacaram a integração latino americana, fragilizaram o Mercosul, com a tese de acabar com a união aduaneira. Se acabassem com ela, o Mercosul iria virar uma espécie de “Alca-Sul”, ou seja, os Estados Unidos iam fazer um acordo de livre-comércio com o Paraguai e pronto, valeria para toda a área do Mercosul.

Mas no meio de tudo isso houve um desastre para eles que foi a vitória do Donald Trump. O que o governo Temer era uma aproximação estratégica dos Estados Unidos, e a política do Trump muda tudo. Até rever o Nafta, que é um acordo de livre-comércio com o México, ele quer, imagina fazer um acordo de livre-comércio com países da América do Sul. É um fracasso total.

Então, a entrada do Aloysio Nunes, ao meu ver, significa um Itamaraty mais do confronto do que da diplomacia. No momento em que tem uma vitória do Trump o que deveria ser feito? Aprofundar a integração entre os países da América do Sul e não o contrário.

O Itamaraty sob o comando de Aloysio Nunes Ferreira vai ser, portanto, mais ideológico, no pior sentido da palavra. Vai fomentar mais divisão na parte sul da América, menos sobriedade, menos preocupação com o que é melhor para as relações comerciais com o Brasil, e um Itamaraty que vai estar em confronto permanente com a Venezuela, Equador, Bolívia. Eu acho que, infelizmente, o Aloysio Nunes como ministro das Relações Exteriores significa isso.

Alexandre de Moraes no STF vai ajudar a estancar a sangria do governo?

Eu fiz um questionamento na sabatina pedindo para ele se declarar impedido em relação à Lava-Jato e o fato de ele ser revisor da operação. Não fez porque não pôde, já que quem o indicou pensou na atuação dele na Lava-Jato. É isso.

O governo pelo qual ele foi indicado tem cinco ministros e o próprio presidente da República aparecendo nas delações premiadas. Ele conseguiu ser aprovado no Senado, mas não resolveu o problema com a sociedade, porque as pessoas estão vendo essa indicação como mais um movimento para blindar a cúpula do PSDB e do PMDB.

É a velha história do Romero Jucá, que falava em estancar a sangria, fazer um acordo com todo mundo, inclusive com o Supremo. Está havendo uma série de ações nesse sentido. A nomeação de Moreira Franco para um ministério, agora a transferência de delegados da Polícia Federal, eles estão interferindo na PF.

O Temer indicou ele para tentar se safar. Lembra daquela gravação do Jucá? “Fazer um acerto entre todo mundo, com o Supremo, delimitar onde está”. Aquela gravação é o que o Temer está fazendo. É isso mesmo. É um roteiro.

Por que uma ala do PT está contra o “discurso do golpe”?

Acho que falta a compreensão por parte do PT do que significava a simbologia de estarmos juntos na chapa com quem apoiou o golpe. E não só isso. Estarmos juntos com quem está rasgando a Constituição para retirar direitos dos trabalhadores.

A gente tem que entender que o golpe não foi um golpe que aconteceu só com o afastamento da Dilma. O golpe está em curso. Ele começa com o afastamento dela, mas o que eles querem é restaurar o neoliberalismo, retirar direitos dos trabalhadores, entregar o patrimônio público nacional. Então, num momento como esse é muito mais importante a gente preservar nossa posição, apostar tudo nas mobilizações sociais para 2017, do que criar uma grande confusão em nossa base social, nos movimentos sociais, para estar junto com a turma que está fazendo tudo isso com o País.

Mas eu acho que esse episódio teve uma lição muito grande, porque houve um levante, uma rebelião da base petista e da esquerda brasileira, que disse para os seus parlamentares: nós não aceitamos apoio a golpista. Foi muito forte o movimento de baixo para cima. E isso levou à mudança de posição na Câmara dos Deputados, e aqui no Senado, infelizmente, a gente não conseguiu fechar questão. Mas tivemos seis votos contra o Eunício Oliveira e quatro votos favoráveis a ele.

Diante disso, eu acho que a esquerda do PT vai ter que definir um pouco o seu rumo para o próximo período. Há uma disputa em curso no Congresso. Há uma parte do PT muito acomodada, burocratizada, que se adaptou muito a uma política de conciliação exagerada.

Fisiologismo por cargos na Mesa Diretora?

Cargos na Mesa, mas mais do que isso. Um pessoal que não entende que neste momento nós temos que fazer uma luta, um enfrentamento permanente contra esses que deram um golpe no País, e apresentar uma alternativa, que eu acho que é o presidente Lula, mas com outro programa. Chegou a hora de entrar no debate sobre a tributação de grandes fortunas, porque nesse país os mais ricos não contribuem. Quem paga imposto no Brasil é trabalhador. Chegou o momento de desmontarmos o sistema da dívida. São 500 bilhões por ano em juros.

Eu acho que quando a gente olha para trás fica claro que fizemos uma política excessivamente de conciliação. Um exemplo é que não fizemos nada em relação à democratização dos meios de comunicação. Era para ter feito.

Por que não fez?

Por acreditar demais numa política de conciliação de classes, como se fosse possível juntar burguesia e trabalhadores. Não. Nós temos um lado que são os trabalhadores. Esse próximo período, se o Lula for eleito novamente, a gente só vai ter condições de fazer um governo de reformas profundas se comprarmos algumas brigas. Por isso eu falei do sistema tributário, dos juros. Temos a maior taxa de juros do mundo.

Então, por trás desse debate do PT tem também essa visão, de uns que acham que fomos expulsos do governo, mas que temos, novamente, que correr para fazer uma política de conciliação com a burguesia, quando a burguesia, na verdade, nos esfaqueou.

Quem são esses setores com quem eles querem fazer uma política de conciliação? Alguns membros do PT ficam atrás dessa ilusão. A gente tem é que formar uma frente popular nesse país, com um programa bem claro, levantar o povo, o trabalhador, contra essa retirada de direitos em curso. Nosso caminho é aprofundar as relações com os trabalhadores. Não é ficar acenando para setores da Fiesp, como se isso fosse nos dar novamente uma outra política de alianças.

Portanto, há um debate na esquerda e dentro do PT sobre que rumos tomarmos. Só que acho que tem uma coisa muito boa. Essa base do PT que se levantou, se rebelou nesse processo contra o apoio a quem participou do golpe contra a Dilma, pode fazer mudanças também. Esse pessoal está dizendo para dentro do PT: Chega. Nós queremos um outro PT, o PT das origens, o PT que tem capacidade de luta, o PT que não esteja adormecido e burocratizado nas estruturas, nos cargos.

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