ENTREVISTA NA BBC: ‘O mercado que tome Rivotril’, diz Guilherme Boulos

Os jornalistas Caio Quero e Felipe Souza, da BBC Brasil, entrevistaram o pré-candidato Guilherme Boulos.

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BBC Brasil – Caso seja eleito, como enfrentaria um Congresso provavelmente hostil ao seu governo? O sr. não tem medo de um eventual governo PSOL ser inviabilizado?

Boulos – Nós queremos apresentar um projeto que, pela primeira vez, vai botar o PMDB na oposição. Não queremos o PMDB na nossa base parlamentar, não queremos aliança fisiológica. Isso significa apresentar um projeto político, que a participação popular não se reduza a votar e acabou. Isso não é democracia. Isso é um conceito tacanho e limitado de democracia.

Queremos uma participação popular permanente. Nós queremos plebiscitos e referendos para temas fundamentais, a começar para no dia 1º de janeiro de 2019 um plebiscito para que o povo decida se quer revogar as medidas tomadas pelo governo ilegítimo de Michel Temer. Sem isso não se governa o Brasil.

BBC Brasil – Parece que o sr. está propondo tirar poderes do Parlamento com essa política plebiscitária.

Boulos – Isso não é desvalorizar as instituições. Ao contrário, é valorizar as instituições, porque é isso que vai fazer com que as instituições estejam em sintonia com a sociedade, aproximando o poder das pessoas.

Mas para representar o sentimento da sociedade tem que estar ouvindo o sentimento da sociedade. Nós precisamos criar esses canais de escuta e de definição que não existem hoje no Brasil. E reitero que eu não estou propondo nenhuma invenção da roda. Isso existe em várias partes do mundo. A Suíça faz mais de dez plebiscitos por ano. O Uruguai faz plebiscitos. Os Estados Unidos, que não podem ser exatamente acusados de comunistas, fizeram plebiscito agora na Califórnia, fazem plebiscitos.

Vários países latino-americanos fazem plebiscitos, escutam as pessoas. O nome disso não é autoritarismo para fechar o Congresso. O nome disso é simplesmente democracia.

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BBC Brasil – Recentemente, o sr. criticou um economista liberal que propôs privatizações em larga escala. Qual seu plano para economia?

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Boulos – Estou para encontrar algum economista neoliberal que se preze mundo afora que defenda isso (privatizações). O próprio FMI nos relatórios mais recentes fez uma série de autocríticas em relação à política que pregaram mundo afora. A política que pregaram em relação à crise de 2008, que não funcionou. Fracassou em todos os lugares do mundo. A política de austeridade, de redução de investimentos públicos durante a crise, só gera novos desajustes fiscais.

Olha, estamos em crise, o Estado segura o investimento. Qual o resultado disso? O resultado é que a economia cai ainda mais com a ausência do investimento público. Gera mais desemprego, desaquece ainda mais a economia e, portanto, arrecada ainda menos. Portanto, a política de ajuste fiscal gera um desajuste.

Em todos os países do mundo, o papel do Estado na indução do crescimento econômico e do desenvolvimento do país foi chave. Pega os Estados Unidos, modelo do liberalismo. Quem é que financiou as pesquisas do iPhone no Vale do Silício? Vocês acham que foi a Apple? Quem financiou foi o Departamento de Estado, o Departamento de Defesa. O Estado tem um papel-chave para qualquer país, inclusive para os grandes países capitalistas, no crescimento e na indução econômica.

Mas o investimento público é chave. Investimento em tecnologia, ensino, moradia popular e saneamento básico, infraestrutura urbana. Isso gera emprego, serviços públicos essenciais para a população e, ao mesmo tempo que recupera a economia brasileira, nos permite reduzir o abismo social e fazer com que o Estado cumpra mais com a sua responsabilidade. Essa é uma primeira linha que nós defendemos.

Agora como se sustenta isso? Enfrentando a desigualdade no nosso país. No Brasil, não falta dinheiro. O Brasil é uma sétima economia do mundo. O dinheiro está mal distribuído. Nós temos que mexer numa reforma tributária profunda e progressiva. O sistema tributário brasileiro está baseado em arrecadação sobre consumo, que é profundamente regressiva, que não tem justiça tributária. O que seria num Estado que opere para a justiça social? Quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos. É assim em boa parte do mundo.

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BBC Brasil – A gente viu ascensão das classes C e D formando uma nova classe média. Como convencer essas pessoas, a classe média tradicional e a elite econômica de que um governo Boulos poderia ser bom para eles?

Boulos – Não dá para convencer a todos. Tem alguns, inclusive, que eu até abro mão de convencer. O 1% dessa elite econômica, eu não acredito exatamente que eles considerem as políticas que nós defendemos boas para eles. No momento que nós estamos e, numa sociedade dividida e polarizada, não é possível governar para todos.

Nós queremos enfrentar interesses. Interesses poderosos. Nós queremos governar pelos 99%. Essa é a nossa decisão. Governar para os 99% significa enfrentar os privilégios do 1%, uma elite financeira que só espolia o país, que leva nossas riquezas lá para fora. O Brasil para eles é uma plataforma de acumulação, e não deixam nada aqui.

Nós queremos enfrentar a lógica de uma economia que exclui e de um Estado que não representa as maiorias. É enfrentar as oligarquias políticas que mandam no Brasil, o grande setor econômico que dá as cartas por aqui. O debate que nós temos que fazer com a sociedade é que hoje esse é o único caminho possível para que os 99% possam ter futuro.

Do jeito que a coisa vai, se não houver uma reversão, perspectiva de futuro não vai existir para a maioria do povo brasileiro. Nós temos 30% de desemprego entre jovens. O cenário é muito grave. Nós precisamos ter propostas contundentes de enfrentamento de rupturas nesse sentido. O papel da minha campanha não é acalmar o mercado. O mercado que busque tomar Rivotril. O papel da nossa campanha é defender o que a gente acha que tem que se defender para a maioria do povo brasileiro. É transformar maiorias sociais em maiorias políticas. Isso significa confrontar interesses e significa enfrentar privilégios porque não tem outro caminho.

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